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Se a blogosfera espelha, de algum modo, a conjuntura nacional, é a vacuidade do sexo e do futebol que predomina, e inclemente, conquista mais terreno. Terminou o período edénico, durante o qual víamos na blogosfera a redenção da decrepitude. Esta dimensão incorpórea, de incomensuráveis benefícios para o intelecto, representa, ainda, os arrabaldes inóspitos, onde laboram alguns energúmenos que procuram torná-la habitável. Os energúmenos são os cultores do pensamento, e esses são, claramente, minoritários em Portugal.
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Alguns dos mais afamados blogues nacionais – nutridos por essência intelectual –, iniciaram um exercício introspectivo acerca do estatuto que ostenta, ou deve ostentar, a blogosfera portuguesa. Mereceu referências enfáticas, no meu último texto, o pleito entre a blogosfera e os jornais, impulsionado pela ânsia de primazia. Apesar de brandir o título de bloguista desde Julho de 2003, seria extemporâneo, boçal e exacerbadamente sectário se atribuísse aos blogues maior poder de influência. O “influenciómetro”, como sugere o cáustico JPT, ainda não foi gizado por qualquer visionário genial, pelo que tal instrumento continuará, somente, a compor os mais inverosímeis devaneios de alguns. Antes de escalpeliza a questão, é premente definir influência. Se nos reportarmos à influência pública, ou ao impacto de ambos os instrumentos no “povo”, é inelutável guindar os jornais a guardião da hegemonia. Se, por outro lado, pensamos nas repercussões registadas numa exígua massa populacional – as “elites” –, a blogosfera consegue esboroar clivagens, mas nunca supri-las.
Ao analisar a influência, não podemos olvidar, igualmente, a demarcação de fontes, bem como a sua qualidade. Os critérios são, sempre, subjectivos, porquanto dependem de preferências reféns de uma singular idiossincrasia. Os meus critérios – quero-os austeros! - privilegiam uma determinada informação, procurando o Público para reuni-la, e arredando o Correio da Manhã. Todavia, e pelas indicações que fornece o Público, o jornal vendeu cerca de 70 mil exemplares por dia no mês passado, ao passo que o Correio da Manhã, se não erro, ultrapassa, habitualmente, a centena de milhar. Se a influência decorrer dos números, deduz-se que, não obstante a superior qualidade informativa, caldeada com opinião abalizada, o Público é prostrado pelo Correio, garantindo uma influência pública superior. Naturalmente que este seria um vaticínio risível, porque subjacente à leitura de um jornal estão diversos factores, dificilmente detectados pela averiguação da influência. A blogosfera portuguesa começa a ser invadida pela lascívia bruta – ao contrário dos relatos obsceno/refinados do Pipi –, o que traduz uma massificação da blogosfera, outrora “abruptizada”, ou elitista. A influência pública de um desses albergues de salacidade é nula, assim como a sua credibilidade. Reconhecendo o espaço de todos, não posso doar credibilidade intelectual a quem se limita a exibir erotismo ou pornografia. Por isso, com um eventual “influenciómetro”, o monopólio da pornografia nunca poderia emular com o Abrupto, apesar de a procura do segundo ser inferior. Repito: antes de discutir a influência, da blogosfera ou dos jornais, definamos critérios. Sem esquartejar o blogómetro, elegendo espaços que cumpram determinados requisitos, é estúpido e dispensável aludir aos mais visitados.
Há inúmeros espaços onde o aprumo intelectual impera, mas a blogosfera não reflecte, de todo, a sociedade portuguesa. O número de blogues existentes, e nutridos com regularidade, são irrisórios em relação ao número de cidadãos. Apesar de considerar a blogosfera o maior espaço público nacional – e quiçá o único -, a probidade coage-me a reconhecer que somente uma parcela reluzente – ou menos medíocre – pousou nestes terrenos. Perco-me em blogues que se debruçam sobre a “coisa pública”, de onde extraio proventos, mas a realidade tangível é outra. Perco-me, também, quando procuro um jovem que não se esquive à meditação cívica, invocando o serôdio e carcomido argumento, segundo o qual “os políticos são todos iguais”. Se a blogosfera espelha, de algum modo, a conjuntura nacional, é a vacuidade do sexo e do futebol que predomina, e inclemente, conquista mais terreno. Terminou o período edénico, durante o qual víamos na blogosfera a redenção da decrepitude. Esta dimensão incorpórea, de incomensuráveis benefícios para o intelecto, representa, ainda, os arrabaldes inóspitos, onde laboram alguns energúmenos que procuram torná-la habitável. Os energúmenos são os cultores do pensamento, e esses são, claramente, minoritários em Portugal. A blogosfera do pensamento frutuoso e lauto é exígua. O contaste entre maioria e minoria leva-me a execrar, novamente, o adágio democraticamente correcto. Inverto-o: “A maioria não tem sempre razão”. Mais. Amiúde, a maioria é rude e as suas decisões são rudes e erradas. Quem sou eu para contestar a decisão de milhões? Sim, um mero e irrelevante cidadão. Mas penso. Ou pretendo pensar. A diferença, tal como a legitimidade da crítica, está aqui.
Terça-feira, Agosto 23, 2005
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