Quarta-feira, Junho 30, 2004

Não deixemos Portugal ser espoliado! Pacheco, volte ao combate!

vbfsousa@hotmail.com

Pacheco Pereira é um notável político. Fico-me por esta dimensão, já que seria leviano se me pronunciasse sobre o seu carácter humano. E partilho com ele esta angústia, este pesar, esta incredulidade que, agudizadas, levam à languidez e à desistência. Já explanei aqui o que acho ser uma incongruência no rumo que Pacheco Pereira delineou - desde o casamento imposto - ao dar o seu beneplácito à nomeação, por este governo, para representante português na Unesco. Pacheco não é um espúrio, porque uma união “contra-natura” não pode originar filhos. Pacheco foi coerente – e espero que não se cale, embora comecemos a denotar uma subtileza nas suas críticas, esquivando-se à objectividade. Já poupa o Le Pen português, e limita-se a colocar, no Abrupto, quadros acompanhados de frugais palavras. Caro José Pacheco Pereira, se você é o que sempre exteriorizou, não se deixe amordaçar! Fale, escreva, conteste, elogie, mas sempre em prol das suas convicções e do país, pelo qual lutou e lutará. Se, para isso, tiver de declinar o convite que lhe foi endereçado, faça-o! Você não depende de um posto em Paris. Seja firme, seja tenaz. O PSD, como bastião da Democracia, necessita de pessoas que escapem à venalidade. Quer você, caro Pacheco, entregar o seu partido às mãos de arruaceiros e populistas como Santana Lopes e Alberto João?
Emirja! Se está tão agastado, por ver o país ser espoliado por percevejos, LUTE! EU ESTOU CONSIGO! PELA DEMOCRACIA, POR PORTUGAL, PELA EUROPA E PELO MUNDO!

Terça-feira, Junho 29, 2004

Falácias de uma Democracia

vbfsousa@hotmail.com

No último "Expresso da Meia Noite", na SIC-N, um dos moderadores discordou do subdirector do Expresso quando este, e bem, fez referência ao cariz directo das eleições legislativas. Não é isto que prescreve a Constituição? Não? Então vivemos todos envoltos em falácias caliginosas! Quem é que, no acto cívico, coloca a cruz no folhetim com o intuito de eleger um deputado da sua região? Nas eleições legislativas, não haja dúvidas, os deputados são eleitos por arrastamento, já que todos os líderes partidários monopolizam o debate, apresentando-se, irrefutavelmente, como candidatos a primeiro-ministro...
Diogo Freitas do Amaral está impregnado de razão ao aludir à natureza "directa" das nossas eleições legislativas. Posto isto, urge distinguir o plano teórico, vertido na nossa Constituição, do plano prático. Este último, pelas sucessivas referências ao pilar da Democracia Portuguesa, abalroa o primeiro. Na Assembleia da República estão deputados obscuros que – ouso arriscar - 90% dos eleitores, que possibilitaram a sua presença no Parlamento, desconhecem.
Na Madeira, a pândega legislativa regional (note-se: PÂNDEGA!) abarca figuras que se incrustam nas cadeiras, soçobrando num estado de letargia que só é rompido na altura de aplaudir os discursos dos possessos jardinistas. Quem os conhece? Quem os elegeu? Uns imberbes há que, enquanto os seus colegas deputados peroram, deleitam-se ao telefone, usufruindo de regalias sumptuosas, inacessíveis a quem lá os colocou. Não será necessário aduzir qualquer comentário relativo às virulentas enfermidades democráticas desta ilha do jardim para, facilmente, compreender que, em qualquer eleição, 75% – volto a arriscar – dos madeirenses volta no seu "símbolo" – como dizia à dias um emérito madeirense, Paquete de Oliveira.
A Democracia, quando revela tamanhos paradoxos, depreca por sérias e ponderadas reflexões. Reflexões, enfatizo, e não avulsas frases como estas. Norberto Bobbio, o malogrado italiano – cuja obra é de uma relevância crucial para a compreensão destes fenómenos ambíguos –, afirmava, em O Futuro da Democracia, que "falar em crise faz pensar num colapso iminente". Por isso, preferia o termo "transformação". Ora, podemos falar em "transformação" na Madeira, para caracterizar o edifício democrático se, desde que vivemos nesta belíssima utopia o governo foi sempre o mesmo? Não haja dúvidas – e já o asseverei outrora – que a Madeira foi dotada, ao longo destes 18 anos – desde a entrada na CEE – de infra-estruturas que propiciaram níveis sociais muito mais consentâneos com a dignidade e condição da pessoa humana. No entanto, a Democracia, comos sistema político assente na participação consciente (note-se: consciente) dos cidadãos, é uma miragem. E as debilidades democráticas, como se provou por estas últimas intervenções – nomeadamente de constitucionalistas –, extravasam os limites da Madeira.
Lanço um desafio a todos os que deixam esvair o seu tempo útil, lendo esta indigência: você, excelso leitor, quando vota para eleições legislativas, fá-lo tendo presente a composição do Parlamento ou, pelo contrário, é instigado a participar civicamente porque um dos líderes partidários enquadra-se no seu perfil de governante nacional? Objectivamente: vota num primeiro-ministro ou no deputado da sua região?

Segunda-feira, Junho 28, 2004

Petição para a candidatura de Alberto João Jardim a líder do PSD

vbfsousa@hotmail.com

Portugueses, Madeirenses, assinem na caixa de comentários, pelo valores insignes e imaculáveis da Democracia!

Alberto João Jardim como candidato a primeiro-ministro, submetendo-se ao sufrágio dos portugues!

As asas de Ícaro

vbfsousa@hotmail.com



Ao longo dos anos, antes de formar uma consciência política e social mais equilibrada e firme, habituei-me a ver, no líder da minha região, um visionário mal-amado, marginalizado por aqueles que não podem aspirar a um pensamento tão prolífero. Os anos passaram, passaram, passaram, e os anos continuarão a passar, a passar, a passar, e eu a ouvir, da boca do presidente, que “sabia como endireitar Portugal!”…. Mas confina-se à sua ilha, querendo transformá-la na “Singapura do Atlântico”. Enquanto isso, é um apoiante empedernido do homem que promete transformar Portugal num imenso túnel do marquês ou – talvez esta razão seja mais fundamentada – num colossal casino…
O homem continua, nos momentos de crise política em Portugal, a ser confrontado pelos mesmos jornalistas de há quase 30 anos, que lhe dirigem palavras da mesma idade. E a resposta é sempre a mesma: “eu sei como endireitar Portugal, mas deixem-me em paz na Madeira…”
Portugal, é sabido, prodigaliza verbas e desperdiça talentos. O povo português olha mas não vê. Está aqui o homem que pode lançar Portugal para céus nunca dantes sobrevoados. Mas cortam-lhe as asas. Desejo, ardentemente, que este Ícaro da política congemine as suas próprias asas, lançando-se da Quinta Vigia para a glória… Esperem lá. Mas Ícaro não foi aquele insolente que se aproximou demasiado do sol, originando o derretimento das suas asas de cera? Oh, que mente iníqua a minha. Não! Esquecei, Senhor, a minha perfídia!
Eu vinco aqui a minha total dedicação a uma causa nobre e justa: a candidatura de Alberto João Jardim a líder do PSD, num congresso extraordinário, precedendo umas eleições antecipadas. O visionário venceria – é que desejaria – e candidatar-se-ia a primeiro-ministro. O resultado? O sentido do meu voto? É secreto, não é? Se vos disser que a morte não se cinge ao sucumbir físico, podereis tirar ilações…
Portugueses, apoiem esta candidatura! A democracia agradece-vos!

Domingo, Junho 27, 2004

Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia

vbfsousa@hotmail.com

Amigo Orlando, aceitei com o maior prazer o seu repto. Temo não merecer os epítetos com que me aspergiu...




Durão Barroso, primeiro-ministro português, líder de uma maioria governamental que foi vergastada na primeira vez em que se submeteu aos votos dos portugueses, será, muito provavelmente, o sucessor de Romano Prodi na Presidência da Comissão Europeia. Confesso que estou satisfeito. Razões? Não posso fugir ao incontornável factor da nacionalidade. Perguntam-me se é suficiente. Respondo, sem delongas, que não! E tentarei, confinado às minhas limitações argumentativas, espraiar o que penso pensar…
É, para mim, uma verdadeira abjecção regozijar-se pela ascensão do nosso primeiro-ministro a Presidente da Comissão (CE) quando, noutras alturas, os mesmos defendem uma União Europeia expurgada de conflitos mesquinhos entre particularismos nacionais. Eu sou um europeísta tenaz, e um patriota empedernido. Mas não, não sou daqueles que adejam a bandeira da soberania imaculada – verdadeira falácia! -, eventualmente preferindo o retorno ao “orgulhosamente sós”. Eu porfio por uma União Europeia que mantenha, respeite e cultive a profusão de culturas que nela convergem, ideal diametralmente oposto a reivindicações nacionalistas torpes que, ao invés de considerarem o bem individual como um bem – ou ausência de mal – para os outros, pugnam por "patriocentrismo" (prometo que não introduzo mais qualquer novo termo!)
A que respeito vem esta deambulação? Romano Prodi trouxe benefícios a Itália? Não me parece. Romano Prodi, como líder da CE, pode ser equiparado a Jacques Delors? Também parece-me ser consensual que não. Qual foi o desempenho da União, por exemplo, na sísmica e dilacerante questão Iraquiana? Letargia, nada mais! Repito: Foi a Itália beneficiada?
E Durão Barroso? Estou extremamente orgulhoso, assevero-vos, pela eventual colocação de um português no 3º ou 4º posto mais importante – teoricamente – do Mundo. Será esta uma resposta que se harmonize com o que desejo para a União Europeia? Não! É uma perspectiva mesquinha e leviana, sem substância significativa. Mas continuo a exibir o meu regozijo pelo salto. Por agora, pelo menos. Será Durão Barroso capaz de robustecer o projecto Europeu? Façamos um rude exercício, não de futurismo, mas conjectural:
• Nos próximos cinco anos, a Comissão terá, entre outras tarefas, a bicuda missão de negociar com a Turquia a sua adesão à UE ou, pelo contrário, vedar a sua entrada. A Turquia não aderirá nos próximos cinco anos, mas estes serão absolutamente capitais no desenrolar do processo de adesão. E não esqueçamos outros candidatos que, durante a Presidência de Barroso, originarão um novo alargamento de fronteiras físicas (vinco "fronteiras físicas" porque a Europa não é a UE, e comungo da opinião de Lucien Febvre de que a Europa não tem fronteiras, já que o intangível não é passível de ser coarctado).
• Nos próximos 5 anos, avaliaremos se a União Europeia conseguiu trilhar o caminho delineado em Lisboa. Será o arquétipo de desenvolvimento económico e cultural? Não me parece, mas não quero fazer futurismo…
• Nos próximos cinco anos, o combate ao terrorismo continuará a revelar-se crucial. Conseguirá a UE mitigar os ímpetos belicistas e unilaterais dos EUA, na eventualidade do actual Presidente continuar na Casa Branca? E conseguirá a UE conciliar perspectivas e padrões de actuação com a única super-potência mundial?
• Os estigmas provocados pela intervenção anglo-americana no Iraque serão abolidos?

Deixei para o fim aquela que, porventura, será a tarefa mais espinhosa do mandato de Durão: a ratificação do Tratado Constitucional – ou Constituição Europeia, como preferirem – pelos 25. O Presidente da Comissão, e o seu contributo, serão fundamentais para que o Tratado Constitucional não origine dissídios entre os Estados-membros. Imaginemos que os referendos – prováveis na maior parte dos países – se transformam, como disse Vital Moreira, na opção por manter-se ou não na UE… Durão Barroso terá de ser irídico, engenhoso e coerente, para rechaçar as pulsões francesas, encarnadas em Chirac que, a respeito da Constituição, chegou a chantagear os relutantes com a expulsão da UE…

Na minha indigente perspectiva, tudo isto tem de ser congeminado. Não basta elevar um português para vê-lo ser motejado pelos outros. Neste momento, estou feliz mas, como vos disse, é efémera a felicidade. Se Durão Barroso propiciar o acrisolamento desta empreitada complexa que é a UE, conferindo-lhe autoridade e qualidade, então o meu regozijo será inexcedível. Veremos. No momento, apoio incondicionalmente Barroso. A avaliação será feita depois. Quero mais Europa, com um Português, Letão, Francês, Checo… Se detectar mais Europa, com um Português no seu comando, obviamente que o deleite será maior, muito maior…


P.S: A problemática da sucessão de Barroso também será, aqui, analisada. Assim pretendo, pelo menos. Santana Lopes? Digo-vos que o seu maior apoiante é o populista que lidera a minha Madeira há quase 30 anos... Talvez não necessite de acrescentar nada mais...

Sexta-feira, Junho 25, 2004

O casebre abandonado

vbfsousa@hotmail.com

O trânsito de Vénus e o eclipse intelectual. Ambos fenómenos intengíveis, mas sentidos. Um, o segundo, com uma intensidade pungente. Estive arredado do meu casebre acolhedor, onde pessoas com a magnanimidade do Henrique continuaram a aportar, lançando olhares pelas frinchas, para descobiri se alguém habitava o sítio. Não. Não há quem o habite. O que é inane confina-se a subsistir. E realidade análoga transforma-se em inverosimilhança. Este período - que o mito do eterno retorno me abandone! - foi inverosímil e eu inane.
Se o mito do eterno retorno não passar de uma especulação filosófica, o Henrique persistirá em voltar. Eu também. Um abraço, amigo Henrique!

Quinta-feira, Junho 17, 2004

O imediato e o intemporal

vbfsousa@hotmail.com

Há algum tempo, do Brasil chegou a esta margem do Atlântico a notícia de que o governo de Lula pretendia reformular as estratégias comerciais e de divulgação do destino Brasil, no Mundo. Hoje, calcorreando as buliçosas ruas do Funchal, onde proliferam agências de viagem, consigo (e o leitor também) descortinar qual dos cartazes se refere ao Brasil, sem olhar para as letras, poucas (uma imagem vale mais do que mil palavras), que os enformam. Mulheres voluptuosas, dotadas de contornos físicos apelativos e cútis bronzeada, desafiam os visitantes a se banharem nas praias de Copacabana… Vende-se um país com a sensualidade feminina, em harmonia com a sumptuosidade natural do país. Para muitos, Brasil é sinónimo de praia, sol, mar, futebol e sexo. Jorge Amado, na literatura, Caetano Veloso, na música, entre outros, confina à elite cultural. E a lógica do mercado não é vender o melhor, mas vender mais. E sem dúvida que as nádegas das brasileiras atraem mais do que as letras de um Homem...
Na Madeira, o fenómeno começa a arrebanhar seguidores. Temos, como representantes da "pérola do atlântico", um futebolista e uma modelo, recém eleita "Miss Portugal". Nas Honduras, ou no Nepal, o nome de Cristiano Ronaldo - em virtude do clube onde actua e do facto de participar no mega-evento “Euro 2004” - deve sugerir algo a quem escolhêssemos como interlocutores. Herberto Hélder ou John dos Passos soaria a absurdo…
Eu, como madeirense, tenho duas pessoas, como difusoras do nome da minha terra, que pouco utilizam o intelecto. Um, talentoso, serpenteia por entre os defesas, como um verdadeiro prestidigitador da bola, mas o que brota do seu pensamento não deverá ser prolífero. E só o pensamento deixa estruturas para o posterior desenvolvimento intelectual/cultural das gerações que se seguem. Outro, uma menina que faz uso do que Deus lhe ofereceu para alcançar o sucesso. E isto não deixa frutos. A exploração das capacidades cognitivas pressupõe esforço, trabalho, dedicação. O embelezamento do corpo também. Mas não queiram comparar. Ler, estudar, escrever, debater, perscrutar caminhos, muitas vezes insondáveis, não pode ser equiparado ao trabalho de um indivíduo que sua num ginásio e cujas únicos sacrifícios passam por controlar a alimentação, no intuito de manter a elegância física. O resto, o intangível, é acessório. A nova "Miss Portugal", que desconheço – inclusive as habilitações literárias – disse, a um meio de comunicação regional, que até ao concurso "Miss Universo" terá de preparar-se muito, física e intelectualmente. Ora, o que entenderá a esbelta rapariga por “preparação intelectual”? A capacidade para articular algumas palavras, com o mínimo de coerência, num treino austero, que culmina num concurso, abandonado de seguida? A isto chamam os modelos físicos de preparação intelectual? Ou esforçar-se-á para lograr acertar à questão sobre qual o "ocupante" actual da Casa Branca?
Admito que é tentador apoiar-se na imagem de um jogador de futebol e de uma modelo para propagar o destino Madeira. Mas fazê-lo traduz a debilidade cultural de um povo e de um governo, que se revê no que envelhece, no que definha, no que se tornará inane, no que é imediato. Este é um facto. Se não nos lembramos de um Herberto Hélder – ele não o queria, é certo -, mas lembramo-nos de um sacerdote da nova fé, o futebol, estamos a ser rudes. Num futuro imediato, sem dúvida, Cristiano Ronaldo significará lucro para a Região. Nada mais. Daqui a um século, Maradona será um ícone longínquo, um D. Sebastião da Argentina para os amantes do futebol (se subsistir). Cristiano Ronaldo, se assim continuar, poderá deixar indeléveis marcas em Portugal e na sua ilha-natal, mas não propiciará a dilatação intelectual/cultural. Disto o Mundo precisa. Disto o Mundo precisa. De pensadores, de impulsionadores. Também precisamos de futebol, para alimentar a nossa vertente hedonista. Mas o prazer grassa, e o conhecimento não. As enfermidades culturais, no Mundo, são pestes que necessitam de ser coarctadas...
Não quero que a minha terra entre para a posteridade como a região onde nasceu um grande jogador de futebol. Só isso? Recuso. Se ficar conhecida como a terra-natal de um jogador e de um cultivador do intelecto, suavizo a minha angústia….
Fernando Pessoa nasceu há 116 anos, e morreu há quase 69. Hoje, na Brasileira do Chiado, uma estátua que o simboliza ocupa o seu lugar habitual, no exterior do café. E Pessoa continuará a intrigar, a enlevar e a lançar sementes para novas colheitas intelectuais. Um jogador de futebol não se pode dar a esse luxo. Contribui para o deslumbramento das massas, qual sacerdote com poderes miraculosos. Todavia, esse sacerdote não se pode aproximar do Galileu que, ao fundar uma religião, continua a moldar mentalidades, passados mais de 2000 anos, com as suas palavras. Este poder é intemporal. E o intemporal é que me atrai. Confesso que gostaria de possuir os dotes intelectuais de um Pessoa. Não escondo que gostaria de saber que o meu corpo mergulhará na penumbra, mas a alma, e o que brotou dela, não. Também quis ser jogador de futebol. Era muito mais arreigado ao presente, ao imediato, ao temporal. Hoje, receio a morte, porque receio ser mais um. E um Homem só não é mais um quando o caminho que trilhou é um exemplo para os seguidores. As agruras que Cristiano Ronaldo passou – e eu bem as conheço -, até atingir o topo, são dignas de ser realçadas. É um arquétipo do esforço humano. As suas jogadas morrem, são absorvidas pelo tempo. O seu percurso não...
O meu pai teve uma infância difícil. Perdeu o seu pai – meu avô – aos 7 anos. Foi obrigado a deixar de estudar. Submeteu-se à tormenta do trabalho mal pago, e de patrões iníquos. Foi para o ultramar sem saber porquê. Hoje, enquanto escrevo, ele dorme. E se escrevo, é devido ao seu esforço, amor e abnegação. O meu pai é o meu farol. O meu sonho é igualar-lhe. Nunca escreveu livros, como eu pretendo, mas foi, é, e será um homem bom. Isso é intemporal. O meu pai não morrerá. Por estas razões e por outras. Eu também espero escapar ao obscurantismo. Pelas mesmas razões, e por outras.
Desviei-me do meu escopo. Desculpem. Desejava vincar o quão absurdo é vender uma terra com rostos bonitos e dribles fantásticos. Porque a Madeira é mais do que isso. Porque a beleza da Madeira só morre quando o apocalipse chegar, ou se o Homem a devastar. A beleza física de uma mulher e as habilidades técnicas de um indivíduo serão, inexoravelmente, corrompidas e obliteradas. O tempo encarrega-se. Contudo, neste Mundo, o lucro imediato é o crucial. E vende-se o eterno com o limitado. Se Lisboa for divulgada como a Ítaca de Pessoa, acho coerente. Porque Lisboa é tão eterna quanto o que Pessoa nos legou.

(In)coerências

vbfsousa@hotmail.com



Pacheco Pereira, como é do conhecimento geral, num futuro próximo passará a ser o representante português, na missão permanente junto da UNESCO. No blog do meu amigo Orlando, opus-me à perspectiva de que esta nomeação era um "tacho" ("ou "panelinha", expressões do impulsionador do Letras com Garfos). E mantenho-a. Contudo, escalpelizando a situação, e mesmo sabendo que Pacheco Pereira representará o Estado - que não se esgota na coligação governamental -, deparo-me com esta realidade paradoxal: quem lançou Pacheco Pereira para “os novos caminhos” – recorrendo às palavras do próprio – foi o governo português. Tendo em conta que esta afinidade, entre o PSD e o PP, foi sempre alvo das críticas de Pacheco Pereira, e relevando a sua tenacidade moral – ao rejeitar o prolongamento do seu estatuto de euro-deputado, eleito por uma união "contra-natura" –, o beneplácito de Pacheco Pereira é surpreendente.
Com as cores de Portugal, Pacheco Pereira estará em Paris, na missão permanente da UNESCO, impulsionado por um corpo que rejeita. O artigo de hoje no Público é, quanto a isso, sintomático: "Sendo as coisas como são, a coligação é um facto da vida até 2006. Agora se se propõe uma aliança estratégica a longo prazo, já ouvi falar em 2012 (e porque não para a eternidade?), então estamos a falar de outra coisa. Estamos a falar de uma fusão de facto de dois partidos". O ainda euro-deputado encara, e já o tinha manifestado, a diluição do PP no PSD como uma possibilidade viável. E este é o corpo que deplora. Porquê? Recorramos, de novo, ao citado artigo:
"As coligações fazem-se por similitudes políticas, por programas de governo comuns (…) em todos os casos a partir de um mínimo denominador comum. (…) Seria errado dizer-se que não existe um mínimo denominador comum na aliança PSD-PP, mas seria ainda mais errado presumir que ela se faz muito acima do mínimo. É uma aliança que tem razões puramente tácticas e que se centra em criar condições instrumentais para o exercício do poder". A verdade, incontornável, é que o PP de Portas integra o governo, o mesmo que nomeou Pacheco Pereira, com a aceitação deste. Minoritário ou não, ao falarmos de governo português falamos, também, de CDS/PP. Em Estrasburgo e Bruxelas, integrado numa família política que expulsou os sequazes de Portas, Pacheco não queria estar, por discordar da coabitação governamental. Em Paris estará, indicado pela coligação governamental…

Terça-feira, Junho 15, 2004

Europa assaltada?

vbfsousa@hotmail.com

As eleições para o Parlamento Europeu revelaram uma tendência paradoxal. Nos países recentemente chegados à União Europeia, a abstenção atingiu níveis atordoantes. Na Eslovénia, somente 20% dos eleitores votou, número análogo ao registado na grande Polónia, na Estónia. Na República Checa, a abstenção atingiu os 30 pontos percentuais.
Todavia, o principal problema que decorre destas últimas eleições não é a abstenção, mas sim o sentido de voto. É verdadeiramente estranho o que emergiu, em muitos dos 10 novos estados-membros. Os polacos, por exemplo, canalizaram 13% dos seus votos para um partido arreigadamente anti-europeu, a “Liga das Famílias Polacas”. Na República Checa, país de grandes europeus, como Kundera, a vitória coube aos conservadores euro-cépticos, do Presidente Vaclav Klaus, com 31%. A aversão à Europa é ainda robustecida com os 17% dos comunistas anti-europeus...
Este cenário, no 1º de Maio de 2004, pareceria absurdo. Mas verificou-se. À priori, os 10 novos companheiros deveriam viver um momento de euforia europeia, acorrendo às urnas massivamente, e votando nos que pretendem um aprofundamento deste projecto europeu. Contudo, tal como já foi esboçado, a abstenção foi colossal, e percentagens de votos inimagináveis foram alcançadas por movimentos que aspiram a ser os algozes da União Europeia… Isto não é preocupante? Teremos agora, no Parlamento Europeu, quem não queira lá estar... E não é por não comungarem da ideologia que subjaz a esta União Europeia. Não. São partidos e pessoas que rejeitam qualquer integracionismo, apelando aos nacionalismos e soberanias serôdias, típicas da Idade Média... A democracia tem destas excentricidades...

Segunda-feira, Junho 14, 2004

Urdiduras sub-reptícias

vbfsousa@hotmail.com

Não bebo bebidas alcoólicas. Não as ofereço a amigos. Se tiver inimigos, também não o faço. Quanto ao tabaco, aplica-se o mesmo. Mas, dissimuladamente, num resquício pouco estudado, prejudicial e abjecto, os trabalhadores de bares persistem no incentivo ao álcool. Como? Não, não me refiro às profusas campanhas que, pelos bares, cidades e televisões, instigam o consumo da única droga socialmente aceite, por todas as sociedades – à excepção daqueles impregnadas de crença no Profeta. São cartazes que permanecem durante todo o ano, conspurcando as cidades, mais do que os cartazes políticos. São festas que se sustentam no derramamento de cerveja, a baixos preços, sem discriminação etária. Mas tudo isto é conhecido, analisado, reprovado e mantido. O que se mantém é uma prática tacanha, que me enfurece, por ser marginalizado quando, ao beber uma Coca-cola (passe a publicidade), pago o mesmo do que um bebedor de cerveja e não tenho direito a amendoim. Despiciendo? Pois veremos…
Já há muito que constato esta prática estulta. Desloco-me a um bar, sento-me, consumo, peço amendoim, e sou atordoado com estas defecações verbais: "só se bebesse cerveja…" Riposto: "Como? Mas que tolice é essa? A Coca-cola é mais cara do que a cerveja, e não sou contemplado com amendoim ou tremoços?" E a lorpice continua: - "Sabe, é a norma!"
Confesso que me refastelo quando, ávido, sorvo a acidez – nefasta – da referida bebida, acompanhada com aquelas pequenas delícias. Nos locias onde sou cliente assíduo, o acordo já é tácito. Por vezes, o amendoim ou os tremoços viajam, na bandeja do solícito e justo empregado, ao lado de um café... Usualmente, porfio por este direito. Se as minhas palavras - na perspectiva deste que escreve, absolutamente fundamentadas e coerentes – não surtem qualquer efeito, ou não penetram nos redutos mentais do interlocutor - densamente cercados por automatismos e reflexos adquiridos, como o de conceder amendoim a alguém que bebe cerveja, e não fazê-lo a quem consome refrigerantes -, não mais volto àquele antro de boçais atitudes. Terá algum nexo, lógica, coerência, esta atitude? Não. Ou melhor, sim. É uma clara recompensa ao comércio de álcool. É o aliciamento do consumo alcoólico. É o ostracismo de quem se limita às bebidas sem teor alcoólico que, muitas vezes, suplantam em preço, as outras. E o preço, também não será um incentivo? Eu, se fosse facilmente influenciável, se não tivesse cultivado, desde cedo, a interrogação dos comportamentos mais prosaicos, seria tentado a pagar mais barato, bebendo uma cerveja num mísero copo de plástico. Antes ou depois do pousar do copo na mesa, o meu justo prémio: amendoim ou tremoços, os dois mesmo, já que o essencial é vender álcool. Porquê? Tudo isto, conforme o prisma, pode transformar-se numa imensa urdidura demoníaca. O álcool vicia, logo o lucro é assegurado. Por isso, entre sorrisos, o empregado, ordenado pelo patrão, deposita aquelas minudências na mesa. Os refrigerantes, pelo menos no meu caso, exercem atracção, mas não têm o poder de me fechar num ciclo vicioso. E isto não é rentável… E o empregado, se for confrontando com a ausência do amendoim, dirá, embaraçado, que "só com cerveja..."

Domingo, Junho 13, 2004

Inferências absurdas

vbfsousa@hotmail.com

Durão Barroso, honrando a argúcia retórica que bafeja alguns políticos, asseverou que tirou claras e inequívocas mensagens do sentido de voto dos energúmenos que votaram. (Sim, porque eu também sou um possesso, já que votar é, progressivamente, um acto de alucinação) Entre elas, esquivando-se a aludir à derrota retumbante da coligação, Durão Barrosso evocou a Constituição Europeia, evidenciando satisfação pelo facto de a maioria devastadora dos eleitores posicionar-se ao lado da coligação PSD-PP e do maior partido da oposição, o PS. Ou seja, o primeiro-ministro e líder do PSD inferiu que os eleitores da coligação e do PS aprovam a Constituição Europeia. É difícil ouvir tamanha aberração! Constituição Europeia?!? Quando é que se falou da Constituição Europeia, nesta campanha? Será legítimo aflorar este assunto, quando esteve sempre arredado das discussões? Estou convicto, caro leitor, da ignorância de 80% dos votantes no PSD-PP e PS, quanto à controversa Constituição Europeia... À falta de argumentos plausíveis, Durão apoia-se numa texto obscuro, para enaltecer a Coligação e o PS... Não será um atentado à saçubridade intelectual, esta menção de um derrotado a um projecto que escapa à maioria dos votantes?!?

Assim, é dificil legitimar uma vitória...

vbfsousa@hotmail.com

O PS venceu as eleições europeias. Dos 35% de eleitores que manifestaram o seu desejo, o Partido Socialista atinge os 45%, infligindo uma clara derrota à claque “Força Portugal”. No entanto, ensombrada pela morte Sousa Franco, este resultado eleitoral não beliscará a Coligação governamental. Perto de 65% dos eleitores mantiveram-se longe das urnas, o que retira fulgor e legitimidade ao vencedor.
Já estou habituado aos ardis retóricos dos políticos. Derrotados ou não, conseguem fazer emergir bons prenúncios. Desta vez, nada se alterará. A coligação justificará a derrota com, eventualmente, o consabido alheamento da população face à Europa, além de argumentar que o voto no PS foi impulsionado pelo sentimentalismo, decorrente da morte do cabeça de lista socialista, Sousa Franco. Depois, altas abstenções beneficiam o partido que governa. E os 65% de eleitores que, quiçá, não votaram porque estão descontentes com o estado do país e da Europa, revelam uma debilidade interpretativa gritante. Se o PS tivesse vencido com os mesmos 45%, mas com uma adesão às urnas a rondar os 80%, estou convicto de que o equilíbrio da coligação tornar-se-ia muito mais precário… Evidenciaria que a esmagadora maioria do país não se revia nas posições europeias da Coligação ou, mesmo, no rumo traçado e trilhado pelo governo nacional. No entanto, mais uma vez, as urnas portuguesas não chegaram a arrebanhar 50% dos boletins disponíveis…

Sábado, Junho 12, 2004

Estrangeiro aqui como em toda a parte...

vbfsousa@hotmail.com



O Mundo comemora, hoje, o nascimento de um dos seus filhos prodígio. O estrangeiro nascia. Fernando António Nogueira Pessôa iniciava a sua alucinante viagem, sendo recebido pelo edifício nº 4 do Largo de São Carlos, casa onde permaneceria até aos 5 anos. O que se sucede, até ao trespasse físico daquele cuja vida foi "exactamente talhada, com esquadria e compasso, pelo Grande Arquitecto", no dia 30 de Novembro de 1935, é das mais assombrosas, prolíferas, geniais e misteriosas vidas que alguma vez deambulou por este planeta. E continua a deambular, imperceptivelmente, asseguro-vos. Sinto-o!
Fernando Pessoa era um funâmbulo, estranhamente arreigado à sua Ítaca, Lisboa. Aos 8 anos parte para Durban, na África do Sul, permanecendo naquela cidade até aos 17 anos. Entretanto, o menino-prodígio havia regressado a Portugal, numa estadia merecida, que durou, aproximadamente, um ano. É aqui que, consensualmente, se situa o momento fulcral para Pessoa e Portugal. Após 5 anos mergulhado na língua Inglesa, o homem que chegou a idealizar tornar-se escritor inglês readquire contacto com o que viria a chamar a sua pátria: a língua Portuguesa….
Dos 8 aos 17 anos, a vida de Pessoa é relativamente obscura. Somente Hubert D. Jennings, professor de Pessoa no liceu, desbrava este lúgubre período, ao escrever a obra "Os Dois Exílios", em 1984. Jennings, imagine-se, descobre que foi mestre de um génio 30 anos após a morte do português… Uma deliciosa história de amor, que começa, para Jennings, depois dos 80 anos…
A viagem de Pessoa alterna entre momentos de alucinação furiosa e taciturnidade tenebrosa. Volátil, instável, Pessoa não se dedicou, exclusivamente à escrita. Teve pretensões na Astrologia, trabalhou (no seu único ofício profissional) como tradutor comercial, explorando o seu perfeito inglês, e foi proprietário de uma efémera Tipografia, de nome Íbis, além de ter criado, com alguns amigos, uma casa editora e comercial, Olisipo.
Pessoa foi protagonista de episódios profundamente cómicos, muitos deles tendo como palco os jornais. Em Durban, envolve-se numa porfia pública, encoberto por um pseudónimo, com um professor. Em Portugal, sai a terreiro defender Gomes Leal, poeta que havia chocado as mentalidades por enaltecer a homossexualidade. Álvaro de Campos também acorre… Pessoa, neto de uma senhora demente, será perseguido, até ao fim da sua vida, pela loucura, que o apaixona. Considera que a loucura é congénita, e envia uma missiva a um seu colega de Durban, identificando-se como médico psiquiatra. O burlão pede ao amigo que opine sobre Pessoa debruçando-se sobre a loucura e o seu génio. De volta, as frases transbordam frieza. Ao que parece, o interlocutor já estava ciente da pluralidade de Pessoa…
No início desta rústica homenagem , asseverei que a alma de Pessoa continua a deambular. Ouso dizer que me acompanha. Ainda estou para descobrir se isso é bom ou mau. Quereis um exemplo?
Em 1986, num dos muitos colóquios internacionais, que congregam profusos devotos pessoanos, Rémy Hourcade declamava o Magnificat de Campos:

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!

Neste preciso momento, um gato assoma à janela e, vagarosamente, atravessa a sala, sob os olhares estarrecidos e assombrados dos presentes… Quem conta é Robert Bréchon, autor de Estranho Estrangeiro, obra que emprestou o nome a este tugúrio...
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A vida de Fernando Pessoa, até ao seu estertor, está impregnada de misticismo. Segundo rumores que até nós chegaram, meia hora antes da sua morte, pede os óculos para ver melhor a morte…. Fernando é enterrado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
50 anos após a sua morte, mas no dia do seu aniversário, a 13 de Junho de 1983, o corpo de Pessoa junta-se, no Mosteiro dos Jerónimos, a Vasco da Gama e Camões. Testemunhas dizem que o corpo estava intacto, após 50 anos de letargia, debaixo da terra...

Há, contudo, um dado que me parece significativo. As últimas frases escritas de Pessoa foram em Língua Inglesa. "I know not what tomorrow will bring". Terá isto algum significado relevante? Terá sido esse o principal desígnio de Pessoa? Ao invés de tornar-se no "supra-Camões", desejaria suplantar Shakespeare? Se assim fora, devemos à burocracia inglesa, e eventual xenofobia, o engrandecimento de Portugal e da sua universal língua. Porquê? Porque Pessoa, nos exames realizados tendo em vista a entrada numa universidade londrina, destacou-se e garantiu o acesso à capital inglesa. Porém, factos ainda não esclarecidos fizeram com que o jovem português retornasse a Lisboa, quiçá desiludido, de onde só sairia quando se deslocou ao Alentejo, aquela terra de "nada por nada rodeado", para a aquisição dos materiais tipográficos. Declinou sucessivos convites para visitar Londres, onde habitava um seu meio-irmão, João. Ressentimento? Talvez. Mas a verdade é que agradeço aos ingleses por essa provável injustiça…

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos, 15-10-1929/


Obrigado, Fernando!

Um país não tem retrato

vbfsousa@hotmail.com

O grupo de rapazes que enverga uma camisola com símbolos de Portugal, honrada e obstinadamente, perdeu hoje frente aos seus homólogos gregos. E agora, Portugal? Soçobras porque os valorosos guerreiros de Scolari foram derrotados? Alcanças o paraíso se passarem à fase seguinte? Revês-te, país meu, nas gestas de um conjunto de atletas?
Para onde vão as bandeiras que, por todo o país, reavivaram o sentimento de patriotismo? Onde andam, cores baças, no restante ano? Responde-me, bandeira formosa! Quem te olvida, quando a bola não rola? Quem são os predadores das tuas cores, que de ti nada sabem, que não conhecem a tua história, que ignoram quem incrustou o mastro que te segurava, nas areias virgens? Quem marginaliza os que navios minúsculos comandaram, perante um mar bravio, tendo à frente do leme a bandeira do sangue e da esperança, cores que animavam os espíritos exauridos e lassos…. Em ti desaguavam as lágrimas que escorriam. E não havia bola pelo meio. Sonhavam com o regresso à pátria que os viu nascer, pátria essa que os depreda, pátria que se apropria das cores em que se enrolavam os que sabiam que, mesmo com todos os seus feitos, Portugal não se confinava a eles…. Portugal não tem retrato. Qual é o retrato de Portugal? Quem representa, legitimamente, Portugal? Um grupo de atletas? Um prémio Nobel? Um cientista excelso? Portugal nunca pode estar em causa! A portugalidade nunca pode correr o risco de se esvair. Mas o perigo é grande, porque um país que, para ressuscitar da penumbra, espera pela entrada de um esférico numa gaiola é, necessariamente, um país triste. Saramago não representa Portugal, mas é português. A sua conquista orgulha a sua pátria, mas enfermidades pululam nela. Não se extinguiram pelo facto de um português fazer ouvir o hino nacional na Academia Sueca (o hino foi tocado?). A conquista de um campeonato da Europa, pelo grupo que veste de verde e vermelho, não expurgará as limitações e debilidades do país vencedor. Não! Esta conquista não projectará Portugal no contexto político europeu. António Vitorino não será eleito presidente da Comissão Europeia pelo facto de o seu país ter erguido uma taça de futebol. Não! Mas uma eventual vitória, neste torneio organizado por portugueses, insuflará o espírito lânguido dos portugueses, indubitavelmente… Contudo, por favor, conterrâneos meus, peço-vos: não coloquem Portugal refém de uma bola! Um país não pode ser identificado pelas suas glórias, porque subsistem fraquezas. Um país não pode ser transposto para uma tela com o recurso a escuras e tenebrosas tintas, porque existem cenários belos e vigorosos que são descurados…
Termino com este alerta. A organização da Expo 98 foi um êxito para Portugal, e identifico aí uma conquista dos portugueses. Oferece-vos este quadro, com traços, concomitantemente, esplendorosos e tenebrosos: se a organização do Europeu 2004 for, unanimemente, considerada "perfeita, imaculada, inultrapassável", mas, no plano desportivo, o desempenho das cores lusas redundar numa lástima penosa, como reagirão os portugueses? Eu sei a resposta… O leitor também….
PORTUGAL NÃO É UMA BOLA! VIVA PORTUGAL!

Sexta-feira, Junho 11, 2004

Portugalidade vácua

vbfsousa@hotmail.com





Hoje começa o Europeu de Futebol. E hoje os portugueses sentem-se portugueses. Não deixa de ser desolador este sentimento patriótico que, bem escalpelizado, é vácuo. Mas eu não me arrogo a essa análise. Que a façam os que têm os livros. Eu tenho a noção, mas não a arte para a justificação.
Se a minha memória, companheira traiçoeira, não me vexar, poderei asseverar que foi Freud quem, num assomo de inspiração, ou na mais óbvia manifestação do seu génio, construiu o conceito de "projecção", que se aplica, sem mácula, no fenómeno português de exacerbação patriótica, em volta de umas figuras que envergam uma camisola com símbolos nacionais, mas que de conhecimento histórico nacional deverão saber muito pouco… No entanto, são estes os homens em quem este triste povo se revê. É com os pontapés e cabeçadas que a bandeira da quinas é brandida, é só depois do apelo de um treinador que o vermelho e o verde adeja, alcandorados, ou enroladas em corpos que transpiram portugalidade. Efémera, contudo…
Lembro-me que, após o Campeonato do Mundo último, na Coreia e no Japão, no qual o desempenho da selecção nacional saldou-se por um retumbante fiasco, o povo português entrou numa fase de letargia intensa e arreigada, misturada com uma taciturnidade cruel, que até motivou uma intervenção do extenuado Presidente da República, sempre pronto a tentar erguer o ânimo deste país sorumbático. E porquê? Porque um magote de indivíduos falhou. O esférico entrou nas balizas erradas. E o povo chorou.
A partir de hoje, por mais risível que pareça, Portugal corre o risco de descer (ou permancer) nos infernos, ou alcançar o éter. É todo um povo que exalta os símbolos nacionais, bem explorados pelos argutos publicitários e jornalistas, além de outras áreas da sociedade, logicamente. Se a taça for erguida por um indivíduo de fartos cabelos, "Portugal vibrará", esqueceremos a dor e as tormentas, abraçar-nos-emos, bradando "Grande Portugal"!. Será? E depois? Mantenho a minha opinião, contra ventos e marés. Triste país que espera por uns pés inchados, cobertos por uns refinados calçados, para robustecer o seu amor-próprio… Aqui está o fenómeno da "projecção", o qual foquei atrás. A frustração do português, a sua avidez por glória, comum a todo o Homem, é canalizada para um grupo de esforçados rapazes, que carregam o atroz fardo da responsabilidade. Sabem que Portugal depende deles. Digam-me: isto não é ridículo? Um país que deu "novos mundos ao mundo", um país que gerou Homens "a quem poder não teve a morte", um minúsculo território produtor de um D. Afonso Henriques, um Camões, um Infante D. Henrique, um Egas Moniz, um Fernando Pessoa, um António Damásio , um José Saramago(não posso enumerar todos, e citei os que me afluíram à mente, entretanto)… Tudo isto é esquecido por uns malabaristas da bola?
Por favor, não me interpretem mal! Eu também vou apoiar a selecção, e desejo ardentemente que o tal sujeito de fartos cabelos erga a taça dos sonhos. Mas recuso-me a depositar a minha portugalidade neste grupo de rapazes, valorosos, é certo, mas que não podem abarcar toda uma história mirífica. As jogas de Figo e companhia ficarão na memória colectiva, sim, tal como as do mítico Maradona incrustaram-se nas recordações mais reluzentes de todos os devotos por futebol. Mas elas não instigam o progresso, o intelecto, o pensamento.
Amanhã, a alma de Pessoa comemora 116 anos de existência. Ele nunca morreu. Sinto-o. E nunca o vi. Mas o seu prolífero engenho, e a sua portugalidade peculiar, fazem bramir com estrépito: "A minha pátria é a língua portuguesa" Viva Portugal!!!

Quinta-feira, Junho 10, 2004

Não sou vidente...mas acertei...

vbfsousa@hotmail.com

Tal como previa, Alberto João Jardim foi mesmo o único político, no país, a fazer campanha política. Ontem deixei isso expresso, ao denunciar a recusa do presidente regional em reformular a sua agenda de hoje. Cumpriu-a, à excepção de um comício da Coligação "Força Portugal", anulado, o que não revela qualquer pingo de sensibilidade. Não tinha margem de manobra para contrariar o que o cabeça de lista, João de Deus Pinheiro, amiúde brando, decretou. Se dependesse do presidente, agora mesmo o vento viria bater à minha janela, arrastando a voceferação populista e demagógica do indivíduo em causa.
Ao inaugurar um túnel, num local até agora recôndito, um verdadeiro ermo quando as intempéries assolam a Madeira, de nome Curral das Freiras, Alberto João Jardim, realçando a sua inépcia em distinguir o estatuto de governante do de líder partifdário, voltou a jorrar palavras belicosas e ofensivas contra a oposição (a quem apelida de "canalha", "inúteis", desqualificados", num registo incomensuravelmente mais deplorável do que os vitupérios de Ferreira Leite em plena Assembleia), olvidando, pura e simplesmente, o período ominoso por que passa a política e a democracia nacional, com o falecimento de dois vultos... Não há tréguas, para este belicoso. Assemelha-se aos EUA, quando ratifica tratados e acordos, violando-os avidamente... O raio deste mundo é que existem máquinas digitais e internet....
O meu ardor, fúria e indignação extravasam-me. Tenciono escrever um texto sobre o conceito de laicismo de Alberto João Jardim que, nos últimos dias, inaugurou (???) um edifício ligado à Igreja Católica, tendo, inclusive, despendido avultadas verbas para a sua construção... Religião e Estado misturadas é coisa de passado? Sim, é. Mas na Madeira, nessa área, vivemos na Idade Mádia. Tudo para contentar o povo. E percebo. Porque inconsciente da existência de um palavrão como este (laicismo), o povo castigaria o seu ídolo se este não fosse ao encontro dos seus anseios espirituais. E não só! Lembremo-nos de que, todos os anos, o Governo Regional solta milhões para financiar uns caceteiros, enquanto o povo não sabe o que é o laicismo. Até não exijo tanto. Mas exigia alguma consciência cívica a esta juventude decrépita e fétida (não toda, atenção), cujo vocabulário se cinge ao ****lho e ao f***-se. Vamos lá, linguístas! Adaptemos o laicismo à expressão ****lho! Assim, poderemos pavonear-nos da sociedade mais culta, dinâmica, interessada e participativa do Mundo! Já imaginaram? Esta juventuide a discutir o laicismo?! Eis um cenário:
- Viste o que o Alberto João disse no Caniçal, na inauguração do edifício da paróquia?
- Eu? Quere lá sabere. Pó laicismo, pá!

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Tropeçar na própria perfídia...

vbfsousa@hotmail.com

Actualização (a negro mais escuro)

Após a hecatombe, as manifestações públicas de consternação, provindas de todos os redutos político/ideológicos. O Presidente da República anunciou que todos os eventos relacionados com a comemoração do Dia de Portugal e de Camões, [programados para ontem], foram anulados. Os líderes de todos os partidos, insertos na campanha europeia, cessaram, definitivamente, a mesma. Todas as vozes que se fizeram ouvir confluíram na decisão de suspender qualquer actividade partidária e, mesmo, governamental. Mas, como sempre, uma torpe mancha assoma no pano alvo do sentimento mais benigno do Homem, a par do amor: a dor pela partida de um semelhante, desespero agudizado pelas características de alguns que deixam o convívio imanente, como é o caso do professor António Sousa Franco…
A mácula é sempre a mesma. Alberto João Jardim. Foi o único a aludir à obrigatoriedade moral de não haver tentativas de aproveitamento político, ou exacerbação sentimental, utilizando o trespasse de Sousa Franco. Todos os Homens que se pronunciaram - e penso ter ouvido todos - , rechaçaram, prontamente, as perguntas dos jornalistas, quando estas incidiam sobre questões eleitorais, porque, alegaram, a hora é de uma contrição pungente. Mas a mancha não. A mancha abordou logo a vertente política. Só um pervertido pode cogitar assim. E caiu na sua própria urdidura porque, ao contestar, atempadamente, os ignóbeis que poderiam apoiar-se na tragédia para colher frutos eleitorais está, ele mesmo, a exteriorizar toda a sua perfídia. Quem não deve não teme, diz o sabedor povo. Que o povo ensine quejandas figuras! Ai, como espero por isso…
Se vos informar de que os actos oficiais do Governo Regional da Madeira, aprazados para amanhã, Dia de Portugal, não foram minimamente beliscados, não ficará o preclaro leitor estarrecido. Já deverá esperar o impensável do líder da minha terra. Mas se vos disser que o suserano regional não destrinça o seu estatuto de presidente do Governo de líder partidário, perceberão que as profusas inaugurações de betão, que realizar-se-ão amanhã, significam abundantes, propícios e indeclináveis momentos de propagação da litania ideológico/populista, típica da figura em causa.
Afinal, quem é o único político deste país que, amanhã, calcorreará ruas, dará palmadinhas no ombro do néscio cidadão, beberá um cálice com o humilde agricultor, atingirá o pómulo ruborescido de uma idosa senhora com um húmido golpe bocal, em busca de votos, votos e mais votos? Se estiverem contextualizados com a realidade regional, saberão que o Governo Regional da Madeira confunde-se com o PSD. E todo o ano é campanha política, está claro de ver…
HAJA DECÊNCIA! POBRE PORTUGAL!


P.S.: Sei que as declarações de Alberto João Jardim surgem como resposta às palavras de Mário Soares, ódio de estimação do primeiro. Mesmo entendendo que Mário Soares não foi correcto, a obstinação de Alberto João Jardim, ao manter a sua agenda intacta, faz com que reforce o que atrás escrevi. Com ainda maior ímpeto. E as justificações, vertidas acima, são inteiramente legítimas, da minha perspectiva...

Sousa Franco não morreu!

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Sousa Franco não morreu. O seu corpo capitulou, enquanto a sua alma ausentou-se. Um espírito como o deste Homem não perece. Sousa Franco VIVE...

Estou desolado. Tudo é pouco neste momento. Um abraço, amigo Sousa Franco!

Terça-feira, Junho 08, 2004

Remanescências de um Império espiritual, e os seus imperadores...

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A magnanimidade do meu amigo Orlando, componente da "ínclita geração" da blogosfera, volta a secar a já limitada fonte, de onde brotam as minhas palavras. Mas haverá nobreza, como esta, que não deva ser exaltada?
Na minha vida - ou nesta vida, porque não sei se haverá outra - amiúde, sinto a ausência de um contributo espiritualmente edificante, num meio largamente pútrido. Eu próprio, por arrastamento, fui aspergido pela degeneração social, e agora estou imerso num mar de vacuidade lamacenta, que impede o progresso do que não é passível de ser visto, mas pode ser sentido. Eu não vejo a amabilidade do douto Orlando, mas sinto-a, mesmo com o Atlântico a separar-nos. E encontrei, neste virtual mundo, um reduto que, embora também não deva esquivar-se à nocividade social, preserva valores e aspirações com os quais me identifico plenamente. E estes valores e aspirações não são virtuais. São, no máximo, fingidos, porque um "poeta é um fingidor"... E o amigo Orlando pode estar a fingir, tal como o nosso Pessoa dissimulava, porque essa habilidade está, somente, ao alcance de uns energúmenos. Não me interprete mal, amigo Orlando. Lembra-se da nossa troca de correspondência sobre a loucura? Pois bem, você é um louco, e eu quero ser como você, e como todos os loucos "benignos". Porque todos os que desejam erguer-se, todos os que sonham tornar-se em homiziados da mediocridade pululante- como ansiava Tereza, no indescritivelmente belo romance de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser - são intrisecamente dementes...

Ou lutamos, arrostamos os cataclismos que obnubilam o espírito - não o corpo - ou...

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.

Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.


Ricardo Reis


Mas não! Deixem-me acreditar que posso ser alguém, que não sou mais uns ossos que aguardam a lugubridade da mãe-terra!

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.


Ricardo Reis

Amigo Orlando, acreditemos que podemos elevar-nos! Acreditemos... Acreditemos todos! Tornemo-nos Homens, abandonemos o animalesco que há em nós! Óh, como desejo ser um Homem, um ser profundamente espiritual, que projecta as suas aspirações para completar as debilidades desse nosso lado - o mais relevante! -, frequentemente olvidado! Lembremo-nos! Corpo, todo o animal tem. Espírito, intelecto, razão...só nos temos, e acabamos como míseros animais, no húmus, se nada construirmos, enquanto o ar habitou os pulmões...

P.S.: No dia 13 de Junho próximo, um Homem, considerado "inútil" enquanto esperava pelo golpe letal da morte, comemora 116 anos de existência, 68 deles em forma de espectro do sonhado "Quinto Império". Não deixemos morrer o desígnio do incomensurável Pessoa, herdeiro de António Vieira...
Inútil, Pessoa? Também gostava de ser tão inútil...

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Cristianismo no preâmbulo da Constituição Europeia?

vbfsousa@hotmail.com

Para muitos não passa de uma discussão despicienda, gizada com o intuito de obnubilar a visão dos temas fundamentais. Mas se a famigerada Constituição Europeia incluir um preâmbulo, porfio pela referência ao Cristianismo, como "empresa" construtora da Europa.
Até à emergência de Carlos Magno, e do seu Império Carolíngio, nada houve que se assemelhasse à Europa, a este conceito amiúde indefinível. A Europa, para os gregos clássicos, surgiu após a divisão do mundo em continentes. A necessidade de contrapor à Ásia e Líbia (África) uma outra designação, que incidia sobre um território que não se incluía nos dois primeiros – como a própria Grécia – forjou o aparecimento desta bela e obscura expressão: Europa! Desde esses tempos seminais, a dificuldade de definir Europa adensa-se. Lucien Febvre, em textos compilados postumamente, confessa não conseguir desbravar as brumas do tempo, e das urdiduras humanas, para balizar o nascimento desta expressão. Nunca alguém foi capaz de descodificar tal mistério. As explicações cingem-se a mitos, como o do rapto de uma esbelta donzela chamada "Europa", pelo salaz Júpiter (Zeus na mitologia grega), metamorfoseado em Touro, que rasga os oceanos e instala-a em Creta, na Grécia. Outros, como Hecateu, sugerem a delimitação equitativa do mundo (conhecido, note-se). "A Ásia e a Líbia, juntas, formam, a crer em Hecateu e seus contemporâneos, a massa continental necessária para servir de contrapeso, no hemisfério ocidental, à massa da Europa", escreve o francês Febvre.
Até ao fim da Antiguidade Clássica - o que , na minha perspectiva, dá-se antes da fusão do contributo nórdico com o legado romano, mediterrânico -, o desígnio de construção de uma Europa nunca se manifestou. O Império Romano do Ocidente, de cariz essencialmente expansionista, relegou o espaço que viria a deter crucial relevo, com Carlos Magno. Os nórdicos, bárbaros, rudes, em oposição à erudição, civilidade e cosmopolitismo romano, foram marginalizados. A integração destes dois substratos, fundamentais para a génese da nossa Europa, é possibilitada pelas invasões bárbaras, que corroem o Império Romano do Ocidente, levando-o a uma lenta e progressiva agonia, cujo estertor ouviu-se no ano 476 da nossa era. (As delimitações temporais nunca são consensuais, atenção! Utilizo esta por ser a mais adoptada.)
Haverá alguém que deprecie a importância dos territórios nórdicos, como a Suécia, Finlândia, Noruega, ou até mesmo a França e a Alemanha, para a Europa? Só o Império Carolíngio irá arrebanhar estes territórios, dotando-os de uma base comum: o Cristianismo. Carlos Magno, em 800, foi coroado pelo Papa Leão III, em Roma, o que lhe garantiu o título de Imperador Romano. Com o auxílio do poder clerical, Carlos Magno torna-se, involuntariamente, refém das congeminações do poder cristão, em Roma que, já na época, a alguns séculos do Cisma do Ocidente, mantinha divergências com a "sucursal" de Constantinopla. A Cristandade tem o seu berço no Império do bárbaro Carlos. E esta Cristandade foi o protótipo daquilo a que, hoje, se convencionou chamar Europa. Mais uma vez recorrendo a Lucien Febvre: "o resultado deste encontro de elementos de origens muito diferentes, mas que acabavam por ser muito semelhantes, acabou por ser uma civilização comum, uma civilização a que devemos sem dúvida chamar europeia, mas que, se lhe pedíssemos o seu nome, não responderia Europeia, responderia Cristã."
Grandes humanistas, como Erasmo e Thomas More, não reconheceriam, porventura, por "Europa" o espaço a que atribuíam a expressão "Cristandade". Mesmo que estabelecessem uma ponte entre "Europa" e "Cristandade", a primeira não se enquadrava nos seus padrões culturais. A prova disso é a escassa (ou nula) referência à "Europa". Erasmo, quando cita dois grandes reis europeus, Carlos e Francisco, alude à sua importância mundial. Esquiva-se à Europa...
O percurso que desembocou na CECA, primordialmente, e agora na UE, contou, incontestavelmente, com o impulso do Cristianismo. Por isso, e pelo que aqui esbocei, rudemente, um eventual preâmbulo, sem escândalos, merece a menção ao legado cristão (ou judaico-cristão, sendo mais preciso). Nem está em causa a velha questão divina: Deus existe? O importante é verter, num pequeno texto, uma súmula dos contributos que confluíram nesta Europa. E o Cristianismo, com os valores a ele associado, constitui um cunho indelével neste curso.
Parece-me pertinente realçar um texto publicado ontem, no Público, da autoria do seu director, José Manuel Fernandes. Cito: "a Revolução Americana garantiu a separação do Estado e das igrejas mas, simultaneamente, protegeu a liberdade de culto como uma das liberdades básicas. Já a Revolução Francesa fez o contrário: ao rebelar-se contra um regime em que o Estado e a religião se confundiam, não foi apenas laica, foi anti-religiosa. O laicismo ‘à francesa’, que gera leis como as relativas ao véu islâmico, é apenas uma emanação dessa cultura" . A propósito, Giscard d’Estaing é um herdeiro directo dessa perspectiva laica…


P.S.: Sendo esta uma discussão que envolve o recurso à memória, à história, e à fundamentação, deleitar-me-ia se os preclaros visitantes deste humilde errante aqui derramassem as suas opiniões...

P.S. 2: sobre a Europa, este espaço tragou dois textos, perdidos nos idos dias de Maio. Emergem agora. Aqui e aqui...

Domingo, Junho 06, 2004

NÃO VOS ESQUEÇO!

vbfsousa@hotmail.com

Em homenagem aos salvadores da nossa Europa e do Mundo, que se despojaram de tenras vidas, oferecendo a outros a possibilidade de usufruirem de uma existência que se aproxima da verdadeira VIDA: imersa em LIBERDADE!
HONRA SEJA FEITA AOS CORPOS QUE TOMBARAM, NAS PRAIAS DA NORMANDIA, SOB UM CÉU TENEBROSO. HONRA SEJA FEITA AOS HOMENS QUE DISSIPARAM AS BRUMAS NAZIS, E TORNARAM, APESAR DE ERROS POSTERIORES, O CÉU MAIS RUTILANTE...

Peço, ao meu amigo Pessoa, que me empreste o seu génio... Belíssimo! Ao ler, até sinto, em mim, as balas a trespassarem os corpos temerários, quando ansiavam pelo regaço cálido e protector das suas mães...

Nesta voz, a dor é ainda mais lancinante...

O MENINO DE SUA MÃE

NO PLAINO abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.



P.S.: Lanço o desafio, a todos os viandantes, de se pronunciarem sobre a relevância do Dia D, o 6 de Junho de 1944. Muitas foram opositores à guerra no Iraque, tal como eu. Mas gostaria de verificar se a actualidade remete para a penumbra os Homens, não só americanos, que esgarçaram as suas vidas para construirem a nossa... Eu, humildemente, homenageio os que pereceram, mas não deixo de ser crítico feroz quanto à actuação externa da Administração Bush. Há hipócritas, que se apoiam em corpos nunca resgatados, a tentar retirar benefício dos actos magnânimos dos seus compatriotas...

Sábado, Junho 05, 2004

Pacheco Pereira e a honestidade intelectual

vbfsousa@hotmail.com

O programa "Quadratura do Círculo", emitido semanalmente pela SIC-N, voltou a fazer emergir o José Pacheco Pereira que admiro. Um homem que não teme difundir as suas firmes opiniões - muitas vezes controversas e passíveis de pertinentes respostas, como é natural -, um militante que não se exime do combate político/ideológico, mesmo quando o alvo é uma larga facção do seu próprio partido. No que concerne à viabilidade da coligação PSD-CDS/PP, Pacheco Pereira nunca deixou a sua desaprovação na penumbra. Fê-la assomar, e mantém, obstinadamente, essa visão relutante quanto à harmonia ideológica entre os dois partidos. Faz muito bem. E enalteço a sua intrepidez, ao abdicar do seu posto europeu, numa manifestação de clara reprovação face à coabitação PSD-CDS/PP, que se desmembrará, em Estrasburgo e Bruxelas, visto que os dois candidatos do CDS-PP, impulsionados pelo voto no PSD, juntar-se-ão à família da direita extremista. Isto é honestidade intelectual!
Julgo que o prólogo deste texto pode propiciar ilações erróneas. Admiro Pacheco Pereira, reconheço nele uma incomensurável erudição e intelectualidade, mas nos últimos tempos, parecia-me, havia procedido a una subtil inflexão quanto à sua opinião sobre o PP. Até estabeleceu, tacitamente, uma parceria com António Lobo Xavier (PP), no programa aludido, combatendo ferozmente o solitário "esquerdista" José Magalhães (PS) que, como é óbvio, não tem pejo em verberar a actuação deste governo, no qual se realça a litania populista de Paulo Portas, e uma aligeirada xenofobia do líder dos populares.
As contingências obrigam às continências. Um dia virá em que Paulo Portas deixará de estar no governo. E aí, o resplendor radical de Portas (re)assomará. É só esperar, ou viver, para ver… Desejo assistir a isso.

Geração BB

vbfsousa@hotmail.com

O concurso, já pútrido, de nome Big Brother, trouxe, apesar de tudo, um contributo inestimável para a caracterização de largas fatias das sociedades contemporâneas, abrangidas pelas iniciais BB, diminutivo de “Boas e Burras” (ou "Bons e Burros", consoante os prismas). Para mim, assentam bem as "Boas e Burras", e os "Burros" – nos quais me poderei incluir -, relegando os "bons" para quem possa opinar a esse respeito.
Mulheres "boas e burras" grassam em Portugal e no Mundo. Os dois B’s constituem motores essenciais para quem quer alcançar o mediatismo neste país, o que pôde ser comprovado verificando a massiva adesão de pessoas a concursos de análogo jaez. Não é o mérito intelectual a garantir prestígio. Um corpo, capaz de encrespar os impulsos animalescos, assegura audiências, provoca dependência televisiva e premeia aqueles que apostaram na frivolidade intelectual e voluptuosidade física, verdadeiros visionários, figuras sagazes, que souberam reverter a ausência de essência espiritual –em oposição à física – em exuberantes dividendos económicos. A TVI, nesse campo, continua a ser um paradigma, e a SIC aproxima-se…Quem retirou a TVI da penumbra, quando se encaminhava para a cova?
Os corpos preparam-se para, nestes meses que se aproximam, acolherem os cálidos beijos do sol que possibilitará, a esses ocos corpos, a assimilação dos padrões de beleza universais (ou ocidentais?). Eles refastelam-se nas areias ardentes, transpiram luxúria, provocam salivações, abundantes e ávidas, nos donos dos olhares furtivos, e caminham, inconscientes, para o definhamento que o tempo lhes imporá. Aí, nessa atroz realidade, o que sobrará dos corpos que despoletavam, nos outros, fúria concupiscente? Nada, nada! Nada, porque sempre foram nada. Nada, porque englobavam os fétidos e abjectos BB’s, representantes de uma sociedade que exalta a exuberância física e a esterilidade intelectual. "Um sonho de mulher", dirão uns. "Um sonho de mulher?!?", riposto, estarrecido. "Uma mulher cinge-se à voluptuosidade física, albergue ermo que nunca recebeu a visita de laivos intelectuais? É isso uma mulher de sonho? Onde estão as verdadeiras mulheres?"
Eu não sou um sonho de homem porque, além de evitar preocupar-me com a mediocridade do meu albergue (MEU albergue por acreditar que eu, que escrevo, sou muito mais do que aquilo que roça as teclas), não convergem em mim as habilidades intelectuais que aspergem outros. Mas se surgisse um concurso masculino, com uma designação análoga - obviamente adaptada ao meu sexo - , bradaria, com tamanho estrépito, que nem a virtualidade aplacaria a minha voz. Porquê? Porque se marginalizarem o segundo critério, garanto-vos que encontrarão uma profusão de representantes etéreos masculinos, prontos para saciarem a sede das vorazes criaturas, que por vales carnais anseiam. Depois, preclaras criaturas, evitem contactos verbais, porque a realidade será penosa…

Quarta-feira, Junho 02, 2004

Bifurcações

vbfsousa@hotmail.com

Quando o corpo sucumbe ao vento cadavérico, o que resta?
Eu, prostrado, sem qualquer movimento, mas essencialmente eu, sempre eu?
O meu corpo, neste perspectiva, traduz aquilo que sou, logo, esta mãe que se move, impulsionada por um sopro das profundezas, não faz parte de mim.
A morte, ao atacar, saqueia o que não é tangível, abandonando no solo a carcaça que albergou o que acabou de se esquivar.
Pergunto: o que sou? Quando morrer, o meu corpo definhado simboliza-me, ou o que faz de mim o que sou já se ausentou?

O alimento do intangível

vbfsousa@hotmail.com

Na passada segunda-feira, encontrava-me imerso num tugúrio, lúgubre, tenebroso, inibidor de qualquer iniciativa produtiva e edificante. Sabia que tinha fome. Fome espiritual, cultural. Por isso, releguei todos os compromissos, emergi dos lençóis, e encaminhei um corpo indolente e uma mente entorpecida para o contacto com o inconfundível mar desta esbelta Madeira. Passei toda a tarde a ler. Libertei-me do fardo que insistia em acompanhar-me. Hoje sei que a leitura está para o espírito como um opíparo repasto está para o estômago. Não me privem da alimentação, porque sem isso morro.
Não me arredem do contacto com a leitura, porque se não viver amancebado com as letras, definho… Seria, sem elas, mais um corpo, trôpego e lânguido, a engrossar o rol de materialistas e cadáveres adiados. Mas nem a leitura me afasta este pavor. Tenho um temor colossal por inutilizar o pensamento, por ser um estéril intelectual. Talvez sou. Mas tento dissipar a caligem que ameaça a vida humana. Porque a vida humana deve ser muito mais do que o automatismo, do que a cedência a impulsos carnais. Não há nada de mais valioso do que o produto que brota do espírito. Na sociedade em que nos inserimos, detecta-se a tendência para enaltecer os dotes físicos, ou os feitos impulsionados por aqueles. Cito um exemplo, que poderá chocar os devotos da nova fé: um grande jogador, como Maradona, não deixará de deixar embevecido qualquer convertido. Mas as suas esplendorosas jogadas instigarão o pensamento, fomentarão a dilatação intelectual? Eu adoro futebol. O futebol pode ser um instigador patriótico, uma confluência de crenças e desejos. Contudo, haverá alguém que conteste o incomensurável contributo intelectual, fornecido por pensadores como o meu amigo Pessoa? A literatura é a mais refinada e bela arte. Aceito, obviamente, respostas contrárias, até porque sou suspeito. Mas a grande literatura condensa todas as artes. Qual de nós não já imaginou uma melodia, engendrou um quadro, gizou um filme? Lendo, todos somos pintores, músicos, cineastas, personagens… Eu amo as letras. E quero transpirar este arrebatamento. Caso contrário, estou a mais aqui...

Debate, constituição europeia, soberania nacional...

vbfsousa@hotmail.com
O debate de ontem, sob a égide da SIC-N, entre 4 cabeças de lista ao parlamento europeu, possibilitou, finalmente, a revelação de esquissos ideológicos, quanto ao projecto de construção europeia advogados pelas forças intervenientes. Desagradável, tal como havia perspectivado, foi a constante ingerência de Ilda Figueiredo, da coligação CDU, insaciável nas palavras, inoportuna e pouco disposta a ouvir, serenamente, os seus opositores. Sousa Franco chegou a bradar contra Ilda Figueiredo, agitando os braços, num dos momentos mais entusiásticos da porfia político/ideológica. Ao contrário da postura plácida que o havia demarcado, Sousa Franco exasperou-se, claramente, com a impertinência da candidata, além de expelir, paulatinamente, a tensão que se foi empilhando no seu espírito, fruto das palavras de alguns biltres.
Quanto à essência do debate, reconheço que a qualidade aumentou. A constituição europeia foi discutida, com os deputados a explanarem as suas ideias, não sem os sussurros da candidata da CDU. Clara Sousa, a moderadora, teve dificuldades em impor alguma disciplina, tarefa que se afigurava hercúlea, pelas razões já esboçadas.
João de Deus Pinheiro, o cortês líder da coligação governamental, estava numa posição muito incómoda. Logo no advento do debate, Sousa Franco foi desafiado a comentar as suas próprias afirmações, em relação ao partido da “extrema-direita”, reforçando as acusações de xenofobia e racismo que, segundo o “pai do Euro”, caracteriza o PP de Paulo Portas. Deus Pinheiro foi obrigado a rechaçar tais epítetos, mas sem uma firme convicção. Percebe-se porquê. O PSD encobre o mal-estar reinante, e concorrerá às próximas legislativas sozinho, tentando livrar-se do fardo populista serôdio do PP. Faço esta dedução pelas posições de algumas figuras de relevo da máquina laranja, que patentearam o desejo de derrogar esta coligação, tal como o meu conterrâneo Guilherme Silva, o militante nº 1, Pinto Balsemão, entre outros.
Sousa Franco e Deus Pinheiro são apologistas da famigerada Constituição Europeia. Miguel Portas e Ilda Figueiredo, pelo contrário, pugnam pela soberania nacional. Uma perspectiva difícil de entender. Haverá, hoje, algum país totalmente soberano? Não será a soberania uma característica decrépita, ou pelo menos corroída? É impressionante como todo o ocidente, T-O-D-O, está dependente do aumento de produção petrolífera na Arábia Saudita. Nem os EUA são soberanos. Se o fossem, escusavam de deprecar pelo auxílio da ONU, no Iraque. A soberania é uma ilusão. Manteremos a nossa identidade, mas o contexto internacional não permite um isolacionismo completo. – “E Cuba?” - ripostarão. Mas Cuba é um território comunista? Como, se lá vendem Coca-Cola? Como, se a ilha está refém do turismo? O comunismo não existe. Mantém a utopia, todavia a degeneração é visível. Foi derrotado, antes mesmo de vencer.
Repito: a soberania é uma ilusão. Na Grécia Antiga, a poderosa Atenas foi obrigada a conjugar esforços com outras cidades-estado, para fazer frente à ameaça persa. Na contemporaneidade, não há ilhas dos bem-aventurados. Ou relacionamo-nos, ou morremos.

Sobre a Constituição, sendo eu um funâmbulo, terei de aprofundar os meus conhecimentos sobre a matéria. Contudo, fica dito. Se recusarem a Constituição Europeia devido à soberania, não estarei de acordo. Posso decliná-la, também, mas os perigos decorrentes da perda de soberania não me convencem. Tentarei voltar a este assunto…

Terça-feira, Junho 01, 2004

Populares olhando o céu...

vbfsousa@hotmail.com

Ouvi, na RDP, a notícia de que populares, em diversas zonas do país, lobrigaram um objecto adejando, envolto em fumo. A protecção civil foi alertada, mas nenhum instituto detectou qualquer anomalia. Mais um caso para adensar o misticismo português, o que, convenhamos, atinge-me. O que andará nos céus? Enquanto a “Spirit” perscruta Marte, estaremos, concomitantemente, a ser estudados? Ou será D. Sebastião, no seu cavalo alvo, esgarçando as brumas tenebrosas de um longo declínio, para instaurar o “Quinto Império”? Ou será Paulo Portas que, continuando a delirar com os motejos do seu eunuco filho, e da deputada laranja, entrou num processo de combustão aérea?
Sem mordacidade, estas ocorrências, insólitas e insondáveis, fascinam-me e intrigam-me. Espero desenvolvimentos…

União Europeia ou o Euro: Eis a questão...

vbfsousa@hotmail.com


Hoje, , às 22 horas, a SIC-N promove um debate, contando com a presença dos cabeças de lista dos partidos com assento parlamentar. Manuel Monteiro, e a sua Nova Democracia, ao que parece, foram marginalizados devido à intransigência de João de Deus Pinheiro, o líder da claque “Força Portugal”, que manifestou o cepticismo quanto à fluência e qualidade construtiva da peleja argumentativa, constituída por mais de 4 intervenientes.
Assim, teremos: o vociferador da estranha mescla “colonialista-europeísta”, João de Deus Pinheiro, brandindo a sua bandeira patriótica; o homem mais ultrajado dos últimos tempos, na política portuguesa, Sousa Franco, cabeça de lista do PS; o irmão Portas, Miguel, do outro lado da barricada, cabeça de lista do Bloco de Esquerda; Ilda Figueiredo, a incansável e entediante palradora, líder da coligação CDU, ao parlamento europeu.
Estou com algumas expectativas. Enquanto os restantes canais exalam futebol, veremos se o mesmo não se passará na SIC-N. Se os participantes não surgirem ataviados com material futebolístico, será um bom começo. Que a Europa esteja no centro das discussões. Tenho uma posição opaca, quanto ao modelo de União Europeia mais desejado – o que me deverá garantir companhia -, e gostaria de tentar rever-me num dos projectos. Se existirem, claro. Senão, voto, mas voto em branco.

A foto de Ilda Figueiredo, cabeça de lista do PCP, não surge entre as fotos dos outros candidatos porque, infelizmente, a única ecncontrada na minha busca era desproporcional em relação às existentes. As minhas desculpas aos que acharem que fui indecoroso, mas assevero que não há qualquer factor político/ideológico por detrás desta ausência. Assim como a dimensão da foto de Sousa Franco não significa qualquer afinidade ou primazia, visto ter sido a que mais se harmonizava com as restantes. Lamentável, mas agora não volto atrás. O que éstá feito, feito está.