Sexta-feira, Agosto 24, 2012
Valsa lenta
Segunda-feira, Maio 07, 2012
Segredo de injustiça
a romaria tradicional às minhas pequenas mortes.
Felizmente que são sempre outros rostos
a sepultar-me com salmos diferentes.
Sinto-me muitos e popular,
com vários nomes registados no cartório
à revelia do pai.
[mas todos filhos da puta.]
deixaria de sonhar
para me poupar à vergonha
de pagar para enterrar os meus ensaios nulos.
Morrer é caro e eu não daria um tostão
para ocupar a terra com derrotas.
de morte.
Foste só mais uma voz no coro
a entoar um requiem,
ou a rezar o terço com a boca cheia de devoção.
Mas devo-te o reconhecimento do mérito:
foste a primeira, e serás a última,
a dizer graças a deus quando recebias a minha extrema unção.
De resto, foste só mais uma oração
que serei obrigado a esquecer
para nunca deixar de acreditar
na falsa salvação que se segue.
É esta a medida de coacção a que fui sujeito
desde que cometi o crime de te beijar.
Se me perguntarem,
direi que amar-te está em segredo de injustiça.
Quarta-feira, Abril 18, 2012
Arte da fuga
[Os bolsos s...ão sempre férteis em eufemismos. Dois homens encontraram-se, por acaso, num miradouro com vista para o mal. Um tinha uma bala, sem arma. O outro tinha uma arma, sem bala. Mantiveram-se irredutíveis. Decidiram que é uma afronta não ser auto-suficiente para morrer. Morrer não é mais uma prestação de serviços. Optaram, então, por sobreviver na memória do outro. Um tinha caneta, sem papel. O outro tinha papel, sem caneta. Decidiram que a vida seria mais higiénica se a cobardia não tivesse reflexo. Nunca mais se viram.]
É quase sempre assim. A tarde chega a arfar e esmaga. Ergo-me e fecho o livro que me sangra, com a caneta por cima, como lápide por escrever. Cumpro, com método e devoção, todas as etapas da abstinência. Como, bebo, fumo e outras coisas mais que exigem a diligência das mãos. Importa mantê-las domadas por uma qualquer rotina estéril. Podia escrever um tratado sobre a arte da fuga com variações em dor menor. Porque há sempre um pretexto para adiar a palavra que redime. Ou que mata mais devagar do que o silêncio. Talvez porque as ideias não morrem, fico-me pela ideia de escrevê-las.
É quase sempre assim. O tempo começa a subir a calçada íngreme da noite. Podia descrever o silêncio da casa, mas algo me diz que preciso de ruído. Vou a um bar ouvir o ruído triunfal do whisky na cabeça e assisto à rotina de outras mãos que precisam de ser domadas para não franquearem fronteiras que só se abrem mais tarde. Podia descrever o ruído, mas algo me diz que preciso de silêncio. Saio e sento-me nas escadas de uma igreja fechada. Imagino o altar branco onde se expiam pecados, com mãos juntas e domadas para não assaltarem a garganta que cala desesperos. Podia descrevê-las, mas algo me diz que preciso de outras orações com joelhos flectidos. Sigo o o rasto do sangue museológico das putas. À porta do bordel, homens enfileiram-se até outros altarares onde também se tomam corpos. Podia descrevê-los, mas algo me diz que não é um pecado original.
É quase sempre assim. Regresso a casa a transpirar. Nos pés, não me desfaço dos sapatos que me ofereceste. As solas gastas recordam-me o pesadelo que foste em cada pedra. Fosse este suor o degelo das palavras húmidas que roubei à boca do teu corpo. Precisava da luz acesa para prestar homenagem aos únicos futuros que sou capaz de criar. Morriam todos na vala comum dos teus poros. Um homem tem direito a uma morte original. Podias inventar-me outro pecado.
É sempre assim. Chego à cama e não estás. Tu és a explicação da escrita: ao teu lado, prolongava a arte da fuga com variações em dor maior. Não escrevia porque as mãos estavam ocupadas a decompor as sílabas com que Deus te fez. Só me restava a tradição oral.
Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.
Quinta-feira, Abril 12, 2012
Agora e na hora da nossa morte
Segunda-feira, Abril 02, 2012
Finais de boca
Teimam em renascer, ano após ano,
Como memória doce de infâncias suspensas
A loucura é pródiga onde a terra é aço
Contra os venenos industriais do esquecimento.
De mim queriam os ossos
E o contrato não garantia sepultura.]
Dos dias parados.
Em baixo, um miúdo clandestino
Esconde as nêsperas na boca
E come-as com a voracidade do tempo
Que lhe consome a infância.
De cima, disse-lhe:
Pertences ao clã do destino
Com final de boca podre.
Guarda esses caroços que te enojam.
Vais precisar deles
Quando quiseres puxar a culatra
Para vomitar gente.
Sábado, Março 17, 2012
Da Alma
Quinta-feira, Julho 21, 2011
Câmara ardente
Passou a tarde numa esplanada sobranceira à infância. As mãos calosas protegiam saltos e acrobacias de crianças suspensos num segundo antigo. Ergueu-se com as mesmas lágrimas que derramara quando uma voz soberana impunha a imobilidade de uma bola que se esvaziava todos os dias. Era o seu tempo redondo com um furo lento. Levou as mãos aos olhos. Provou as lágrimas. O gosto era o mesmo, porque o choro não envelhece. [Em criança, as lágrimas percorriam um caminho limpo até à boca.] Observou o primeiro degrau com um fulgor onírico exumado da vala comum de dias que já nascem cansados. Para superar o degrau, empilhou todas as fotos gastas até uniformizar o chão. Seguiu caminho sem recolher os seus mortos. Na passadeira, deixou passar uma ambulância que gritava agonias. Pensou que a morte tem sempre prioridade.
Este homem solitário era uma câmara ardente de memórias. Dizia-se um cidadão de Deus à procura do atalho oculto para a esquerda do Pai. No caminho, outro degrau com um centímetro para além da agilidade. Superá-lo seria um milagre. Pensou que a distância até Deus exige forças que as pernas perderam. Voltou para trás e recuperou os seus mortos. Precisava deles para saber as coordenadas do passado. Pensou que Deus é uma multidão de clandestinos guiados por uma bússula sem ponteiros.
Quinta-feira, Abril 07, 2011
Dos futuros
“Hoje ainda não te ouvi”. O verbo ecoou entre o transe de gramas que enxertam circuitos neurológicos desligados. Se tentasse falar, a palavra morria-me por inanição no sepulcro profanado dos lábios retalhados por explosões radioactiva. Cada vez mais creio na palavra cirúrgica como a extensão do nervosismo.
Compreendo, agora, o homem analfabeto que estreara o solo com as mãos sobre uma falha sísmica. A ciência diagnosticara-lhe epilepsia. Só ele sabia ter o nervo do sismo. Tentei extirpar-lhe a tensão telúrica. Deus saltou-me a tremer para os braços. Perguntou-me, a soluçar orfandades, se Lhe daria abrigo. Ofereci-O a uma mulher que, quando se descobriu estéril, dedicou-se a engolir promessas de futuros pagos.
Quinta-feira, Março 31, 2011
Da glória
Cresci com os inúmeros rituais da minha avó. Levantava-se ainda de madrugada para engomar a roupa do marido. Um dia, acordou-me para acompanhá-la no pequeno-almoço. “Anda. Acabei agora de engomar a roupa do teu avô e o leite está a arrefecer” -, sussurrava-me com a rouquidão de manhãs gastas. Eu era criança e não media as palavras. Nunca a tinham confrontado. Talvez temiam uma reacção colérica. “Avó, o dei já morreu”, respondi. Ela sentou-se na cama, afagou-me os olhos estremunhados e beijou-me a fronte. Ergueu-se com a convicção de que a mudez seria mais eloquente do que as palavras que não tinha. Só mais tarde percebi que a sanidade é mecânica e a loucura uma camisa do avô defunto esquecida no estendal. É preciso um esforço para manter intacta a jugular do quotidiano.
Creio que o mesmo acontece com um velho que percorre o quarteirão, à tarde. Conheço-lhe a família desde criança e aprendi a ver as horas na beata fumegante que ele sempre depositou no canteiro. Quando já não havia sinal de fumo na beata, eu estava atrasado. Quando eu não encontrava a beata, temia que a morte já o tivesse fumado. Mas não. Penso que a empregada do prédio aprendeu outra fórmula para medir o tempo. Se pudesse, punia-a. Ninguém tem o direito de adulterar assim as horas.
O homem sempre fumou um cigarro por dia. Oferecia-lhe o irmão que já morreu. Se ele, agora, passasse a fumar dois e a depositá-los no mesmo canteiro, talvez eu não suportasse a existência de tempos paralelos. (Espero que o homem me proteja da loucura.) Como o irmão faleceu, ele vagueia em busca de um cigarro virgem. Enalteço-lhe o brio quando ignora um aborto precoce. Nos vários cafés do quarteirão, os clientes habituais também confirmam a cadência do tempo quando escondem os maços de tabaco. O velho ainda não despontou e já todos guardam os maços. É um espectáculo semelhante à hipnose colectiva. Se eu não interviesse, corria o risco de viver irremediavelmente fora do compasso.
O cigarro é a sua glória diária. É provável que saia de casa só para prosseguir a colecção de troféus na montra dos pulmões. Eu, que não tinha propósito algum, espero pelo velho para lhe oferecer um cigarro.
Eu não sou altruísta, velho. Vivo para te parasitar a glória.
Terça-feira, Março 29, 2011
Nós
Crescera-lhe no espírito uma aspiração longínqua. Faltavam-lhe palavras para preencher a distância entre a vigília e a lucidez. Os centímetros anódinos que separavam o pé do chão, quando se erguia, imolavam todos os despojos oníricos. Era a sua reentrada em fogo fúnebre na atmosfera diurna. Um dia, pediu-me algo volumoso para anular aqueles centímetros crematórios. Pensei que não havia melhor rede do que a palavra de Deus, o grande incendiário. Ofereci-lhe a Bíblia.
Começou a inaugurar os dias com a boca. Inspirava o fôlego de Deus como um cuspidor de fogo que esquecera a técnica da comunhão. Tornou-se cioso de um pacto secreto entre línguas proibidas. Abdicou de falar e olhou para as mãos.
A aspiração longínqua revelou-se. Quis ser escritor. Embrulhou as mãos em papéis brancos e procurava, logo pela manhã, a palavra espontânea. Nunca a encontrou, mas descobriu no papel vestígios de ranhuras. Estendeu as mãos e os papéis a uma vidente que se demorou nos nós dos dedos. A mulher explicou-lhe que ali se acumulavam aspirações embargadas. Ele acreditou que a vidente se referia às palavras coaguladas nos nós.
Serrou cada dedo pelas linhas ponteadas. Julgou ter descoberto a abertura fácil para desatar destinos. Talvez tenha razão e Deus seja uma ponta solta que os homens atam à garganta.
Terça-feira, Novembro 02, 2010
Manuel Alegre na Caixa de Pandora
Entrevista exclusiva de Manuel Alegre, candidato à Presidência da República Portuguesa, à Caixa de Pandora
www.caixapandora05.blogspot.com
Sexta-feira, Julho 02, 2010
Suicidai-vos na paz de Cristo
Há muitos anos que se deitava com o equipamento de queda-livre, porque sonhava todas as noites. Antes de regressar à lucidez, uma frase desprendia-se dos seus restos de torpor. “Suicidai-vos na paz de Cristo”. Não sabia se aquela era a voz tonitruante do demiurgo que lhe impunha o sacrifício. Sempre fora temente a Deus, mas só não queria morrer. Quando entreabria os olhos estremunhados, a cama sugava-o como um crematório ávido de esperanças. Entre a obediência a Deus e a liberdade de ainda não querer morrer, engendrou um ardil que lhe garantia a ilusão de conciliar forças antagónicas.
Passou a se levantar sempre de costas, depois de se recordar de um conselho ancestral da avó. “Filhinho, não andes de costas porque indicas o caminho ao diabo.” Então, despojou-se da parafernália com que sempre dormia, nos tempos em que temia acordar plasmado nas pedras mortas que as crianças atiram para o mar, sem saberem que, com esse gesto, profanam os desejos de todos os suicidas. As crianças também não sabiam que o mar se enfurece porque rejeita o desassossego pétreo de quem apressou a quietude da morte. Já bastava ao mar a inconstância eterna a que fora votado por Deus, quando o Seu espírito pairava sobre as águas, inquieto por não saber o que fazer para combater ócio. Dizem que Deus tentou afogar-se, antes de se descobrir omnipotente. Respirou dentro das águas e dela irromperam vulcões. Da inconsciência Dele, nasceram ilhas, pátrias de todos os abismos. O resto do Mundo é posterior, criado porque Deus se apercebeu do erro e quis dar aos Homens a possibilidade de viverem sem o espectro da queda.
O homem era ilhéu. Todas as manhãs, matava o diabo que lhe renascia, à noite, nos lençóis em forma de escarpas.
Sábado, Junho 19, 2010
Horas mudas
Fizeste sangrar a solidão.
O silêncio caiu sobre a mesa fria.
As mãos desistiram de te recriar
Pela linguagem dos homens.
Vejo o teu odor
Como quem se alimenta de chamas.
Ardes-me na voz, e todo eu sou mudez.
Pairas como candeia
Feita de insónia a ofuscar a cegueira.
És grito tribal no coração de um autómato,
A criação onírica de Deus no Sétimo Dia.
Guardas na boca a caixa de Pandora.
Fechada.
Abre-a, como um tufão,
E atira-me para longe da tua distância.
Porque todo o mal do Mundo é a espera
Do segundo que humedece os lábios
E emudece as horas.
Terça-feira, Junho 08, 2010
Domingo, Junho 06, 2010
O meu projecto de morrer é o meu ofício
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
Daniel Faria
Domingo, Maio 23, 2010
Do atraso
Terça-feira, Maio 04, 2010
Segunda-feira, Maio 03, 2010
Quarta-feira, Abril 14, 2010
Uma vida de (a)Deus
(Originalmente publicado em Fevereiro de 2008)
Alguém bateu à porta, naquela tarde de ócio estival. Mas ócio era uma palavra que ela desconhecia, e não só por ser quase analfabeta. Também desconhecia o conceito. De imposta vassoura nas mãos, fustigava as esquinas das portas com uns ferozes golpes que limpavam os estilhaços das lágrimas caídas. Um corrupio assombrava a casa, entre o chocalhar de panelas com comida do almoço e a alegria feita grito das crianças dispersas pela casa, num tropel infindo. Não as odiava só porque já haviam nascido ricas. Não podia amaldiçoar os ricos, porque também queria ser como eles. Sentia náuseas com o congestionamento cerebral que a ideia de se amaldiçoar a si própria causava. Uma baça esperança sobrevivia, algures, em si, e agudizava-se o desdém com que manejava a vassoura. Largou-a para abrir a porta, cedendo às imprecações da mãe, ocupada com uma criança que ainda não se socorria do bacio. Avolumou-se a sombra do tio, enquanto ela se aproximava do pórtico. Ao abrir a porta, não evitou o trejeito agreste como resposta ao “bom dia, filha”. Pagou por isso, mais tarde, e entrou na madrugada com as pernas imersas no azeite, mezinha ancestral para curar feridas.
Naquela mente de criança que não se lembrava de chorar nos braços da mãe, um rico existia na ausência da vassoura, ou do ferro de engomar. Cresceu com esta incipiente e cândida noção de riqueza. Todos os dias, quando se deitava numa madrugada já clara, sussurrava para a almofada desbotada a dor que havia aprendido a calar. Chorava pólvora seca de raiva sustida, enquanto as suas mãos calejadas percorriam o corpo, acariciando as rugas precoces dos sonhos cansados de só serem sonhados. Dormia pouco, por coerção, mas devaneava, durante todo o dia de labuta, com o sono, onde encontrava a sua ausência. Quando vestígios de sono ainda fervilhavam no torpor ébrio da consciência expatriada, tímidos raios de sol derramavam-se pelas frinchas da janela, apagando o escuro da vigília.
Habituou-se a acordar com o cântico dos galos, sangrando os pés quando calcorreava o caminho espinhoso do regresso a si. Só muitos anos depois aprendeu a apreciar aquela sinfonia anárquica, na placidez dos lençóis. Antes de ser mãe, compreendeu que privar as crianças dos trinados dengosos dos galos era um crime. Prometeu zelar pelo sono dos filhos quando o espectro da manhã se desenhasse. Teve duas filhas, gémeas. Hoje, a surdez impede-a de ouvir as pingas compassadas da chuva, o rumorejar hermético da folhagem e os galos na aurora rouca. Talvez por isso, não sei, no sonho mudo de há dias, o bisneto que ela teme não embalar decalcava, no seu ouvido embargado, os desconchavos de um galo emudecido nas reminiscências furtivas da infância perdida.
Esteve pouco tempo na escola, suficiente para aprender a desenhar as letras do seu nome e a soletrar grande parte do alfabeto. No âmago daquela criança com mãos de cal, pulsavam ânsias que se cruzavam com o conhecimento. A escola representava uma fuga às tarefas caseiras, e toda a família a incitava a “aprender a escrever, para que possas assinar o teu nome quando casares”. Um dia, chegou a casa feliz, e varreu com inusitado fulgor as repartições limpas de madrugada, ao acordar. A família transitava pela casa, batia à porta, derramava vinho no chão, e ela parecia desenhar círculos com a vassoura. O pai chegou tarde e estupefez-se com aquela erupção porosa de esplendor. “Se tu pensas que vais para a escola namorar, enganas-te. Vai já para o quarto. A escola acabou.” Despediu-se da filha com uma bofetada que a fez oscilar. Mas, nessa noite, pouco importava. Até à cama, continuou a escrever o seu nome com a vassoura, e nunca soube que dançava a valsa do destino. Nunca mais voltou à escola, e já podia casar.
Cresceu numa época de privações. Sem compreender o Mundo que se alongava para além da sua miopia patológica, converteu a figura do padre em símbolo de verdade profética, quando a fúria dos céus abriu crateras na cidade e derrubou casas de pecadores. Tinha uma obscura ideia do fim do mundo, só iluminada pelo fogo celeste que incendiava os medos dos fiéis. Pensou que o fim havia chegado quando monstros negros se erguiam dos mares calmos da Madeira, e cuspiam infernos. Foi num desses dias que conheceu o homem com quem haveria de casar, quando regressou com os pais a casa no táxi de um vizinho que tinha um herdeiro varão.
Percorreu a adolescência como um trovejar distante. O seu mundo reduzia-se a cada dia, mas ganhava uma amplitude vertical, entre a terra e um Deus que vivia sobre as nuvens. Habituou-se, desde a infância, à litania acrítica que os padres reproduziam, e passou a explicar tudo através do “poder de Deus”. Já na velhice, quando, pela primeira vez, viajou de avião, exclamou: “O poder que o sopro de Deus tem para alevantar isto!”. Quando ela ouve a notícia de que um avião se despenhou, eu sinto que ela vive um dilema, e eu traduzo o seu silêncio apreensivo assim: “Os aviões caem porque Deus perdeu o fôlego”. A vida dela é simples, porque tudo o que ela não consegue entender, Deus explica.
Casou cedo, engravidou, e teve duas filhas. As filhas deram-lhe netos que a fazem querer superar-se. Há muitos anos, o sonho dela era ver a primeira comunhão dos netos. Mais tarde, o crisma dos netos. Depois, quis viver para assistir à consagração dos estudos deles, perante o senhor padre. Os netos continuaram a crescer, e os objectivos dela adaptaram-se aos novos tempos. Viu uma neta casar-se, e nesse dia disse que já podia morrer feliz. Mas viveu para além desse dia, e já se prepara para respirar a fragrância branca das outras netas “encaminhadas”. “O meu desgosto é não ver o meu único neto casado”, confessa. Mas ela renova os desgostos a cada hora, desde as dores nas pernas que a entorpecem, a deformação das mãos que a impedem de engomar, ou os problemas na coluna que lhe retiram altivez. A vida fê-la esquecer os sonhos de criança, algures abandonados numa infância que a velhice devolve. Sempre que o neto parte para o estrangeiro, despede-se com um “não sei se é adeus”. Mas não há adeus para a eternidade.
Hoje, vive só, entre retratos antigos e móveis imóveis, perseguindo a ilusão de que está tudo no mesmo lugar. Mas não está. A nova casa situa-se à distância cósmica de 30 minutos de passos cansados. Nas noites insones, ela fala com uma porta que não se abre: “Então, não entra ninguém. Por que ninguém bate à porta?” Noutras noites, contempla a foto de um sobrinho ciclista, e sobe com eles as madrugadas vazias, almejando os céus prometidos que vivem nos olhos azuis de um neto.
A bisneta por nascer visita-a em todas as madrugadas, porque ambas temem extraviar-se. A neta grávida confessa ao médico que a angustia o silêncio da filha, à noite. Nem ela nem o médico sabem que a filha visita a bisavó. Ela ensina-a a ler, e ouvem, juntos, o despertar dos galos.
"Avó -, sussurra-lhe a bisneta -, ensino-te a ler, mas nunca assines a certidão de óbito".
Quinta-feira, Abril 01, 2010
Dia da mentira
Se o dia 1 de Abril coincidir com o Domingo de Páscoa, a Igreja declara-o dia herético.
P.S.: Todas as notícias sobre pedofilia no seio da Igreja deviam ter sido veiculadas hoje. Era mais fácil para a Igreja negá-las...
Sexta-feira, Março 19, 2010
Da solidão
Quarta-feira, Março 17, 2010
A puta da vida (conto)
Uma noite de névoa já lhe havia caído nos olhos. Ela estava encostada num poste, indiferente às vozes satíricas que ecoavam de um varandim. As rotinas das noites de espera tornaram-na indiferente aos outros. Sabia-se observada, conheciam-lhe os passos, antecipavam-lhe o destino. Mas nada a incomodava. Só a passagem lânguida de carros esporádicos faziam-na levar a mão aos olhos, afastando a cortina baça que a escondia de si. Por vezes, só se apercebia da marcha furtiva dos carros quando as luzes das travagens ténues lhe fervilhavam nos olhos raiados. Perseguia, com um passo errático, o odor predatório que os carros vertiam na calçada. O sexo não tem segredo para uma puta. Descodificava todos os sinais. Nunca os homens a fitavam nos olhos, quando desciam a rua. Os homens sabem que nos néones vermelhos das travagens está o sangue das putas. Já as putas mais lúcidas acreditam que a tonalidade das luzes de travagem foi idealizada para transformar as ruas em bordéis ambulantes.
Alguns dizem, sem falar, o tempo de que necessitam para expulsar o veneno branco. Gaguejam travagens como minutos. “10 minutos. Passa aqui daqui a 10 minutos”, sussurra a puta ao homem oculto que a acompanha os passos, sem divergir o olhar do carro que a espera, na esquina recôndita que dilui identidades.
Nunca soube o nome dos clientes. São corpos, como ela. Quando regressa a casa, obriga-se a enfrentar o espelho para não perder a identidade. Repete o seu nome até à exaustão, numa torrente que se torna esquizofrénica quando a voz gutural da puta a anula.
- Sou a puta da rua dos aranhas! Sou a puta da rua dos aranhas! Sou a puta da rua dos aranhas!
Várias vezes teve de substituir os espelhos desfeitos do quarto, porque não tinha dinheiro para refazer a face. Nas madrugadas de loucura, reabria os olhos e via-se coberta por estilhaços. Ainda em transe, parecia-lhe ver, em cada partícula de vidro, reflexos colados do seu rosto, fragmentado e desalinhado. Hoje, adornam-lhe as paredes bolorentas espelhos desavindos, reconstruídos, peça por peça, à procura de uma identidade que se perdeu no sémen crematório dos homens.
Antes de se confundir com as esquinas, ela tentou o abrigo de um bordel, mas o ar macilento, a pele enrugada, a contornar os ossos, e os olhos abismais atiraram-na para as ruas. E ainda havia a gaguez, como espasmos de tantos homens que se instalaram na voz. Nos primeiros tempos de rua, aprendeu muito com outras putas, mas aterrorizava-a a consciência de que, na aurora, as outras sofriam metamorfoses, e escondiam o perfume barato na sarjeta. Ela era puta todos os dias, e todas as noites.
Tinha sido uma criança inteligente, e relativamente bonita. Os olhos, que se converteram em abismos sepulcrais, foram vertigens para os rapazes da sua infância e adolescência. Pelos seus seios abundantes correram muitas lágrimas de apaixonados que ela consumia, e rechaçava. Nunca imaginou que, um dia, seria carne descartável. Numa das noites em que recordava esses tempos faustosos, afluiu-lhe à memória a carta que um amante proscrito a endereçou. Era uma carta impregnada de lamúrias e censuras, mas com um epílogo que, na altura, lhe pareceu um vaticínio luminoso: “Faças o que fizeres, sei que continuarás a parar o trânsito”.
Ergueu-se, ajeitou o vestido, deixou respirar um pouco mais os seios comprimidos, e o primeiro carro parou. Durante a viagem, descobriu que é sempre necessário reinventar o passado, nem que tenha de ser puta para voltar a parar o trânsito.
(Todos os direitos reservados)
Segunda-feira, Março 15, 2010
Avulso
A cápsula do sono, esse vaivém onírico que se incinera no regresso à atmosfera diurna.
Quarta-feira, Março 10, 2010
Terça-feira, Fevereiro 23, 2010
Uma ilha em forma de cão sentado
Herberto Helder, Photomaton & Vox
Domingo, Fevereiro 14, 2010
A profanação

P.S.: Ah, enquanto o Briguel, sobrinho do súcubo, jogar, não contem comigo.
